Por Tribuna Foz dia em Notícias
O comércio livre das canetas emagrecedoras no Paraguai
Nas ruas da região central de Ciudad del Este, anúncios em português de canetas emagrecedoras estampam portas de farmácia, e ampolas infláveis gigantes dão boas-vindas aos brasileiros. Algumas lojas oferecem brindes a quem postar no Instagram contando que comprou o produto.
Uma atendente de farmácia disse à reportagem não haver qualquer restrição de quantidade para quem compra estas canetas — e que não era necessário apresentar receita médica, embora isso seja exigido oficialmente.
Quando questionada se não havia riscos de o produto ser apreendido ao tentar entrar no Brasil com ele, a orientação foi "esconder bem na mala".
Brasileiros pegos na fronteira costumam dizer que desconhecem as regras. Caroline, uma moradora de Foz do Iguaçu, tentava trazer quatro ampolas de tirzepatida quando foi parada pela Receita na Ponte da Amizade. Todas eram de uma marca proibida e foram apreendidas.
"A farmácia dizia que essa marca estava liberada", justificou à reportagem Caroline, que teve seu nome trocado nesta reportagem.
Em seis meses, ela contou, havia perdido mais de 40 kg usando os medicamentos paraguaios. "Nunca havia sido parada. Agora, vou me informar mais."
Além da retatrutida, a Anvisa atualmente também veta outras várias marcas de canetas e ampolas de tirzepatida vindas do Paraguai: Gluconex, Tirzedral, Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec.
Essas marcas foram proibidas pela Anvisa depois de a agência identificar que são vendidas amplamente pelas redes sociais no Brasil, o que é proibido para medicamentos sem regulamentação.
"São medicamentos sem registro sanitário, que não tiveram a qualidade, eficácia e segurança de uso avaliadas no Brasil", disse a Anvisa à BBC News Brasil.
As canetas que não foram expressamente vetadas pela agência podem ser trazidas do exterior, contanto que a pessoa tenha uma receita em seu nome e compre apenas o suficiente para três meses de tratamento, no máximo.
Mas a Anvisa alerta que "não tem como se pronunciar sobre a segurança de medicamentos que não estão registrados no Brasil".
Os riscos do transporte clandestino
As canetas e ampolas apreendidas vêm escondidas das mais variadas formas, segundo auditores da Receita: dentro de embalagens de salgadinhos, fones de ouvido, garrafas térmicas — ou até mesmo em canos de escape de motos e motor de carros.
Essa forma de transporte coloca ainda mais em risco a saúde de quem usa o medicamento, ressalta a endocrinologista Caroline Janovsky.
Quando fechadas em embalagem, as canetas precisam ser armazenadas em ambiente refrigerado, entre 4ºC e 9ºC. "Quando está em um ambiente quente, teoricamente, ela estraga", diz Janovsky.
"O risco não é só perder efeito. Se a caneta estiver contaminada, quando esquenta, você está fazendo um meio de cultura de bactérias. E aí você vai injetar direto no seu corpo, o que pode levar a complicações graves."
Casos de pessoas que tiveram problemas de saúde sérios e até mesmo morreram depois de usar canetas emagrecedoras do Paraguai foram noticiados nos últimos meses.
O delegado da Polícia Federal de Foz do Iguaçu, Emerson Rodrigues, diz que as canetas são a "bola da vez" no contrabando vindo do Paraguai.
"A gente já viu isso com os cigarros paraguaios, depois o cigarro eletrônico, anabolizantes", conta. Rodrigues avalia que a febre em busca de canetas paraguaias só deve arrefecer caso o preço desse tipo de produto diminua no Brasil.
Hoje, o Mounjaro, única marca com venda permitida no Brasil de tirzepatida, custa a partir de R$ 1,5 mil nas principais farmácias, na dose mais baixa e com desconto oferecido pelo laboratório.
No Paraguai, é possível encontrar canetas vendidas como "similares" por R$ 300. As ampolas, que são aplicadas por meio de uma seringa, saem ainda mais baratas, a partir de R$ 35.
No Brasil, a patente da tirzepatida só deve cair em 2033. A da semaglutida, do Ozempic, caiu em março, mas não deve derrubar os preços tão cedo, como mostrou uma reportagem recente da BBC News Brasil.
Segundo a Anvisa, atualmente existem oito processos em análise para o registro de novos medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic.
No Congresso, tramita em fase inicial um projeto de lei para suspender temporariamente a patente da tirzepatida para ampliar o acesso a tratamentos para obesidade, ainda restritos devido ao alto custo.
'Há indícios fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo'
As apreensões da Receita, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal no Paraná têm aumentado de escala.
Em março, durante a visita da reportagem à alfândega, agentes na sede da Receita em Foz do Iguaçu abriam caixas e contabilizavam centenas de canetas e ampolas apreendidas em uma única operação. A carga encontrada em um carro e uma casa lotados de medicamentos foi avaliada em cerca de R$ 2 milhões.
Cláudio Marques, delegado da Receita, explica que grupos criminosos têm percebido a vantagem econômica da venda desses produtos — muito mais do que o cigarro, por exemplo, produto muito conhecido por ser contrabandeado pela fronteira paraguaia.
"Esses medicamentos acabam sendo muito mais vantajosos para grupos criminosos porque é um produto pequeno, não requer uma logística grande de veículos, como o cigarro", explica Marques.
A Polícia Federal também já identifica o envolvimento de grandes organizações criminosas no comércio dessas canetas.
"Temos apreensões na casa de milhares de canetas quase que diariamente. São indícios bem fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo", diz o delegado Emerson Rodrigues.
Qualquer apreensão que é feita, explica o delegado, é encaminhada para a Receita, que instaura um procedimento administrativo, posteriormente enviado ao Ministério Público Federal (MPF), que vai decidir se apresenta denúncia para instaurar um inquérito.
"Isso vai depender se a pessoa está transportando pela primeira vez ou não, se ela já tem registro de outras apreensões", explica Rodrigues.
Uma vez investigada, a pessoa pode pegar de 10 a 15 anos de prisão, segundo o delegado, por poder ser condenada por um crime hediondo que coloca em risco a saúde pública.
Fonte: G1
