A caneta emagrecedora "pirata" que brasileiros se arriscam comprando no Paraguai: "Tenho mais medo da gordura"
Por Tribuna Foz dia em Notícias
A caneta emagrecedora "pirata" que brasileiros se arriscam comprando no Paraguai: "Tenho mais medo da gordura"
Molécula experimental retatrutida está em fase de testes e ainda não foi aprovada para uso humano. Mas brasileiros em busca do emagrecimento já se arriscam comprando produto clandestino no Paraguai, em apreensões que já chegam a milhões de reais em 2026.
Quando a agente da Receita Federal na fronteira entre o Brasil e o Paraguai sinalizou ao mototaxista que parasse, o nervosismo de Mariane, na garupa, já chamava atenção.
Suando e com as costas curvadas, a advogada de 42 anos explicava na Alfândega de Foz do Iguaçu, no Paraná, que só tinha comprado no país vizinho um pote grande de Nutella. Ela estava mentindo.
Por trás de um casaco roxo amarrado na cintura, colado com fitas adesivas no seu cóccix, estavam sete canetas emagrecedoras escondidas.
A embalagem apontava serem de retatrutida, uma molécula experimental em fase de testes que ainda não foi aprovada para uso humano ou para ser vendida em lugar nenhum no mundo.
Mas produtos que dizem ter o novo medicamento já são vendidos livremente no Paraguai, de onde são trazidos em grandes quantidades para o Brasil. Também é fácil encontrar formas de comprar pelas redes sociais.
"Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim", afirmou Mariane à BBC News Brasil ao ser flagrada com o produto. Seu nome real foi preservado nesta reportagem.
A advogada conta que começou a usar canetas do Paraguai há seis meses e que já conseguiu perder mais de 20 kg.
Ela diz que comprava de um vendedor que conheceu nas redes sociais e que entregava em sua casa, em São Paulo, mas resolveu ir por conta própria pela primeira vez ao Paraguai. Assim, conseguiria economizar mais de R$ 300 por unidade.
"Com o preço no Brasil, eu não consigo manter meu tratamento. Agora, vou ver o que fazer", disse Mariane, antes de ser autuada pela Receita e liberada para fazer o caminho de volta à capital paulista.
A retratutida ainda está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly, criadora e detentora da patente do produto. A expectativa em torno dela é grande, porque os testes iniciais mostraram um potencial de promover um emagrecimento ainda mais rápido do que as canetas campeãs de venda desse mercado, de semaglutida (Ozempic) e de tirzepatida (Mounjaro).
Não há previsão da empresa sobre quando o produto vai chegar de fato ao mercado.
Na Alfândega de Foz do Iguaçu, porém, há apreensões diárias de "retatrutida" feitas pelos agentes da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Elas se somam às apreensões de vários tipos de canetas e ampolas de medicamentos emagrecedores com outros princípios ativos — especialmente, a tirzepatida—, que também são proibidas pela Anvisa de entrar no Brasil.
Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras já superam, em valor, todo o ano de 2025 no Paraná, Estado onde as autoridades brasileiras realizaram o maior número de operações para tentar conter a entrada ilegal destes medicamentos no país. Foram mais de R$ 11 milhões em apreensões em três meses do ano.
Também há número relevante de apreensões em São Paulo e Mato Grosso do Sul, que também faz fronteira com o Paraguai.
Em Foz do Iguaçu, as canetas já são o segundo produto mais apreendido do ano, depois do celular, segundo a Receita. E as canetas de retatrutida já equivalem a quase 10% do total de apreensões desse tipo de produto em todo o Paraná, segundo dados obtidos pela BBC News Brasil.
"A gente fica muito preocupado. É um produto totalmente irregular, e que a gente está percebendo que as pessoas falam muito disso no Brasil e nas redes sociais", diz Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita em Foz do Iguaçu.
A médica Caroline Janovsky, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e coordenadora do serviço de obesidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta os riscos de usar esse medicamento.
"Ninguém sabe se teve controle sanitário correto, se a dose que diz é a que tem, se está contaminado, se tem outra substância misturada. Então, pode haver efeitos colaterais graves", diz Janovsky.
Em duas manhãs em que esteve acompanhando o trabalho da Receita Federal em Foz do Iguaçu, a BBC News Brasil flagrou três apreensões desses medicamentos — em duas, a retatrutida estava presente.
Cinco caixas deste medicamento foram flagradas dentro de uma sacola preta abandonada no chão de uma van que fazia transporte de passageiros entre Ciudad del Este e Foz. Ninguém que estava no veículo assumiu a princípio o contrabando.
"Isso é bem comum no caso de produtos como cigarros, medicamentos, anabolizantes. As pessoas descem do veículo, mas deixam o pacote para trás", explicou Caio Santana, auditor da Receita em Foz do Iguaçu, à reportagem durante a apreensão.
Como não foi identificado um dono, a responsabilidade recairia sobre o motorista e a dona da van. Os dois foram comunicados que o veículo seria apreendido.
"Esse é meu ganha-pão, nunca iria arriscar meu trabalho por conta de canetas", contou, chorando, a dona da van.
A situação só se acalmou quando um passageiro resolveu assumir a responsabilidade.
"Só porque fiquei com pena dela, mas não é minha", disse o jovem, que também teve dois celulares apreendidos. "Eu trago iPhones para vender, não vou mexer com canetas."
Em fase de testes
A retatrutida atua de forma semelhante à de outros medicamentos para emagrecer que são cada vez mais populares no Brasil, em um mercado que movimentou cerca de R$ 12 bilhões no ano passado, segundo a Close Up, consultoria que produz análises do mercado farmacêutico.
Essa molécula se liga a receptores-chave presentes no cérebro e no trato gastrointestinal envolvidos no metabolismo, diminuindo o apetite e desacelerando a digestão.
A diferença é que a retatrutida tem a capacidade de agir em três receptores hormonais, enquanto a semaglutida atua em único receptor e a tirzepatida, em dois.
A Eli Lilly diz que o medicamento vem apresentando bons resultados na terceira e última etapa de testes, feitos em larga escala para confirmar se realmente funciona e é seguro.
A farmacêutica diz que ele pode levar a uma perda de até 28,7% em cerca de 15 meses. Em comparação, a semaglutida chega a 15% e tirzepatida, em torno de 20%, segundo suas fabricantes.
Espera-se que os testes da retatrutida sejam concluídos neste ano. Se os resultados forem positivos, a empresa poderá iniciar o processo para comercializá-la.
À BBC News Brasil, a farmacêutica disse que não há previsão de lançamento comercial e que a molécula só está disponível apenas nos seus ensaios clínicos.
"Versões não originais de candidatos a medicamento da Lilly não foram testadas, não são regulamentadas e podem ser perigosas — em alguns casos, fatais", afirmou a empresa em nota, em que ressaltou ainda que as versões vendidas no Paraguai são "provenientes de fornecedores estrangeiros ilegais".
Em um alerta emitido em junho de 2025, a Dinavisa, a "Anvisa paraguaia", esclareceu que os produtos vendidos atualmente como retatrutida também não são aprovados para uso geral ou venda no país.
"Esses produtos não têm registro sanitário e podem conter ingredientes não declarados ou substâncias perigosas para a saúde. Se você estiver utilizando algum desses produtos, interrompa o uso imediatamente", disse a agência.
O produto que mais tem sido comprado por brasileiros no Paraguai diz na embalagem ser de uma indústria farmacêutica com sede em Leipzig, na Alemanha. O endereço aponta para uma rua residencial da cidade.
A BBC News Brasil tentou contato por meio dos canais informados em diversos sites que dizem ser do laboratório, mas não obteve resposta.
Fontre: G1
