Brics ignora ameaças de Trump e mantém plano de desdolarização no comércio
Por Tribuna Foz dia em Notícias

Brics ignora ameaças de Trump e mantém plano de desdolarização no comércio
A primeira reunião dos negociadores chefes do Brics, realizada em Brasília desde ontem, foi marcada por uma determinação de seus membros de ignorar as ameaças de Donald Trump e seguir com a ideia de trabalhar pela criação de um sistema que permita que moedas locais possam ser usadas no comércio entre os membros do bloco.
Presidida pelo Brasil, a reunião termina nesta quarta-feira com a adoção do programa de trabalho para o bloco de onze países emergentes em 2025. A questão da moeda, segundo revelaram ao UOL diplomatas brasileiros e estrangeiros, será mantida na agenda para o ano.
Nos últimos dias, Trump repetiu a ameaça de que irá adotar tarifas de 150% contra produtos dos países do Brics, caso o bloco decida reduzir o peso do dólar no comércio.
O presidente americano, na semana passada, chegou a afirmar que o Brics estava "morto" depois de suas ameaças de sanções contra quem marginalizasse o dólar.
"Brics morreu no momento que eu mencionei isso", afirmou."Se eles brincarem, não terão comércio conosco", insistiu. "O que vocês acham que vai acontecer?", questionou.
Na reunião nesta terça-feira, porém, o nome do presidente americano sequer foi mencionado pelos membros do bloco. Em apenas uma situação, um dos governos ironizou o fato de que "há um país que não gosta desta ideia".
A proposta do Brasil, porém, é a de evitar que o tema se transforme em uma ofensiva ideológica. O Itamaraty quer fazer avançar o debate a partir de uma consideração "pragmática, técnica e circunscrita", justamente para não abrir uma frente de batalha com Trump.
Para sustentar a tese, o governo brasileiro destaca que, hoje, já exporta mais aos parceiros do Brics que aos EUA e Europa, juntos. Em 2023, o país vendeu US$ 120 bilhões às economias emergentes, contra US$ 83 bilhões aos mercados europeus e americano. Na diplomacia brasileira, o tom que será usado é de que a ampliação do uso de moedas locais visa ser um instrumento para tornar o comércio entre os países em desenvolvimento "mais eficiente" e "mais seguro".
Outro enfoque do Brasil será o de mostrar que o processo estará sendo conduzido por bancos centrais e pelos ministérios das Finanças, e não a partir de posições ideológicas.
Ao fazer seu discurso, o chanceler Mauro Vieira deixou claro que a questão das moedas faz parte das prioridades da presidência do Brasil.
"Apesar de nossa contribuição significativa para a economia global, o comércio entre os membros do Brics ainda está muito abaixo de seu potencial", disse. "Nossa presidência se concentrará em maneiras de aumentar os fluxos comerciais, explorando medidas de facilitação do comércio e estimulando instrumentos de pagamento em moedas locais", afirmou.
Durante a reunião, porém, outros países foram mais enfáticos, ainda que todos tenham a consciência de que não se trata de criar uma moeda nova. Apenas permitir que os países possam fazer intercâmbios comerciais, sem ter de passar pela moeda americana.
O governo da China ainda rebatizou as siglas do Brics, como uma forma de responder às pressões de Washington. Elas seriam: Bravery (em português, Coragem), Responsabilidade, Inclusão, Cooperação e Solidariedade.
No começo do ano, Trump foi às redes sociais para fazer seu alerta. "Vamos exigir um compromisso desses países aparentemente hostis de que eles não criarão uma nova moeda do Brics, nem apoiarão qualquer outra moeda para substituir o poderoso dólar americano, ou enfrentarão 100% de tarifas", disse Trump.
"Não há nenhuma chance de os Brics substituírem o dólar americano no comércio internacional ou em qualquer outro lugar, e qualquer país que tentar deve dizer olá às tarifas e adeus aos EUA", insistiu.
O dólar representava 85% das reservas globais em 1970, proporção que caiu para 58% hoje, de acordo com o FMI. O euro representa 20% contra um volume ainda insignificante das demais moedas.
Para Trump, dólar é poder
Já para o governo americano, a redução do papel do dólar não significa apenas uma perda de hegemonia no comércio.
Parte das sanções unilaterais aplicadas pelos EUA é no sistema financeiro, diante da presença dominante do dólar. Um país, portanto, pode ser asfixiado apenas ao ser impedido de usar a moeda americana.
Mas, se um sistema financeiro paralelo for criado com moedas alternativas, o poder da Casa Branca de impor sanções é reduzido.
Fonte: Uol