CAMPANHA NO EXPEDIENTE: Cadê os promotores de “saco roxo”? Foz do Iguaçu espera fiscalização
Por Tribuna Foz dia em Notícias
CAMPANHA NO EXPEDIENTE
Cadê os promotores de “saco roxo”? Foz do Iguaçu espera fiscalização
Silva e Luna e Gabriel Rugoni acompanharam agenda eleitoral de Sergio Moro em horário comercial; enquanto a campanha corre pelas ruas, fica a pergunta: quem fiscaliza quem deveria estar trabalhando?
Em Foz do Iguaçu, aparentemente o relógio da campanha eleitoral tem um fuso horário próprio. Na quinta-feira, 24 de setembro de 2026, o prefeito Joaquim Silva e Luna e o secretário municipal de Governo, Gabriel Rugoni, acompanharam compromissos eleitorais do candidato ao Governo do Paraná, Sergio Moro.
A agenda de Moro começou às 10 horas, com carreata, passou por entrevistas às 11h e 12h30, caminhada pela Avenida Brasil às 13h30, gravação eleitoral às 15h e outros compromissos durante a tarde e a noite. Ou seja: não faltou atividade política em pleno horário comercial.
Segundo reportagem publicada pelo Portal Trivox, o Prefeito General Silva e Luna e Rugoni participaram da programação. A mesma publicação aponta remuneração de R$ 26.025,79 para o prefeito e R$ 17.431,14 para o secretário.
O salário é público. E o horário?
Fazer campanha política é legítimo. Apoiar candidato também. O que precisa ser esclarecido é algo bem mais simples: servidor ou ocupante de cargo público estava participando de campanha enquanto deveria estar exercendo suas funções? Se estava oficialmente afastado, licenciado ou dispensado do expediente, que isso seja demonstrado.
Se não estava, surge uma questão que não deveria ser tratada como detalhe administrativo. A Lei das Eleições estabelece expressamente, no artigo 73, inciso III, a proibição de ceder servidor público ou utilizar seus serviços em campanha eleitoral durante o horário normal de expediente, salvo quando estiver licenciado.
Portanto, antes de transformar tudo em normalidade, existe uma pergunta elementar: qual era a situação funcional de cada agente naquele momento?
E o Ministério Público?
É justamente aí que entra outra personagem dessa história: a fiscalização. Ou deveria entrar. Diante de imagens, agendas públicas, horários e registros divulgados, seria razoável esperar ao menos a apuração dos fatos e a verificação de eventual uso da estrutura, do tempo ou de serviços públicos em benefício eleitoral.
Não significa condenar antecipadamente ninguém. Significa fiscalizar. Significa pedir documentos. Significa verificar folha-ponto, eventual licença, afastamento, agenda oficial, uso de veículos, servidores, assessores ou qualquer recurso público.
Afinal, Ministério Público existe justamente para que determinadas perguntas não dependam apenas de jornalistas, cidadãos ou adversários políticos.
Cadê os Promotores de “saco roxo”?
Em Foz, durante muitos anos, havia uma expressão popular, politicamente incorreta, é verdade. Usada para definir promotores conhecidos pela disposição de enfrentar prefeito, secretário, figurão ou quem quer que estivesse no caminho: “promotor de saco roxo”.
Era uma referência à coragem institucional. Hoje, diante de determinados episódios, a população pode legitimamente perguntar: onde foi parar aquela disposição para investigar? Porque silêncio institucional não pode virar decoração permanente.
E fiscalização não deveria depender do sobrenome, do partido ou da cadeira ocupada pelo investigado. Muito menos pode existir a impressão de complacência com práticas que merecem, no mínimo, esclarecimento.
Improbidade? Primeiro, investigue
Também é preciso responsabilidade jurídica. Não basta participar de uma atividade política durante o expediente para automaticamente existir improbidade administrativa. Desde a reforma promovida pela Lei nº 14.230/2021, a Lei de Improbidade exige demonstração de conduta dolosa tipificada e, conforme o enquadramento, outros requisitos previstos na própria legislação. Mas é exatamente por isso que existe investigação.
Se não houve irregularidade, os documentos demonstrarão. Se houve, que sejam adotadas as medidas cabíveis. O que não combina com fiscalização é simplesmente não perguntar.
Servidor público ou cabo eleitoral?
Cargo comissionado não é sinônimo de cabo eleitoral remunerado pelos cofres públicos. Prefeitura não é comitê de campanha. Expediente público não é horário eleitoral gratuito. E salário pago pelo contribuinte não deveria financiar, direta ou indiretamente, atividade político-eleitoral.
Se havia licença ou afastamento, apresente-se. Se não havia, investigue-se. Simples assim. Enquanto isso não acontece, permanece uma cena desconfortável: a campanha acontece à luz do dia, em horário comercial, e a fiscalização parece precisar de despertador.
Talvez esteja na hora de descobrir onde foram parar os antigos “promotores de saco roxo”. Não para condenar ninguém por antecipação. Mas pelo menos para voltar a fazer perguntas que o dinheiro público exige que sejam feitas.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 447, página 10 de autoria do Jornalista Enrique Alliana

