ELEIÇÕES 2026: Querer ser deputado é fácil. Ter votos para chegar lá é outra história
Por Tribuna Foz dia em Notícias
ELEIÇÕES 2026
Querer ser deputado é fácil. Ter votos para chegar lá é outra história
Em época de eleição acontece um fenômeno curioso: aparece candidato a deputado por todos os lados
Tem candidato com experiência política, trajetória conhecida, estrutura eleitoral e histórico de votação. E tem também aquele que não conseguiu votos suficientes nem para conquistar uma cadeira de vereador e, dois anos depois, surge convencido de que agora poderá conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa ou até na Câmara dos Deputados.
Sonhar não custa nada. O problema é quando o eleitor não conhece o histórico eleitoral de quem está pedindo seu voto.
Antes de apertar o “CONFIRMA”, talvez seja interessante fazer uma pergunta bastante simples: Esse candidato possui histórico, estrutura e votação potencial compatíveis com o tamanho da disputa que resolveu enfrentar?
Porque candidatura registrada é uma coisa. Viabilidade eleitoral é outra completamente diferente.
Não conseguiu chegar à câmara, mas agora quer ser deputado?
Não ter sido eleito vereador anteriormente não impede ninguém de disputar uma eleição para deputado. Isso é perfeitamente legítimo.
Mas o histórico das urnas é informação relevante.
Se determinado candidato disputou recentemente uma eleição municipal e recebeu uma votação insuficiente para chegar à Câmara de Vereadores, cabe ao eleitor analisar o que mudou desde então.
Aumentou sua base eleitoral? Conquistou projeção regional? Construiu novas alianças? Passou a possuir presença política em outras cidades? Ou simplesmente trocou o número no santinho, aumentou o tamanho da fotografia e agora pede votos para um cargo muito maior?
A urna anterior deixou números. E números não fazem discurso, não gravam vídeo eleitoral e não colocam filtro em fotografia. Eles simplesmente mostram quantos votos o candidato conseguiu.
Viabilidade eleitoral também deve entrar na discussão
Existe muita conversa sobre “voto útil” nas eleições majoritárias. Nas proporcionais, porém, a discussão exige mais cuidado.
Deputados estaduais e federais são escolhidos pelo sistema proporcional. Isso significa que não importa apenas a votação individual: entram na matemática os votos recebidos pelo partido ou federação e a distribuição das cadeiras.
E existe um detalhe que deveria receber muito mais atenção: o voto dado a um candidato que não consegue se eleger pode contribuir para a eleição de outro candidato da mesma legenda ou federação.
Ou seja: o eleitor pensa que está escolhendo apenas Pedro, mas seu voto também participa da matemática eleitoral do grupo de Paulo.
Por isso, não basta perguntar: “Gosto desse candidato?”
É preciso conhecer seu histórico eleitoral, sua experiência, seu partido ou federação, os demais candidatos que disputam pela mesma legenda e suas possibilidades concretas dentro daquela chapa.
Foz precisa discutir representatividade
Foz do Iguaçu frequentemente reclama de falta de representatividade política. Depois da eleição começa o conhecido roteiro: faltam deputados ligados à cidade, faltam interlocutores em Curitiba e Brasília e sobram reclamações de que outras regiões possuem bancadas politicamente mais numerosas.
Mas representatividade não aparece por geração espontânea. Ela depende também da maneira como o eleitorado distribui seus votos. E aí surge uma discussão incômoda, porém necessária: quantas candidaturas de Foz entram numa eleição realmente competitivas e quantas entram apenas para participar da disputa, fortalecer uma legenda ou construir capital político para o futuro? Essa pergunta não deve ser respondida por propaganda eleitoral. Deve ser respondida com números.
Experiência não se inventa no santinho
Outro elemento que merece análise é experiência. Ser conhecido não significa estar preparado. Ter seguidores não significa possuir capacidade parlamentar. E aparecer durante 45 dias de campanha dizendo que vai “defender Foz” também não significa possuir trajetória política capaz de transformar promessa em representação.
Da mesma maneira, experiência por si só não garante qualidade. Cabe ao eleitor avaliar histórico, realizações, votação anterior, atuação pública e capacidade de articulação.
A campanha pode vender sonhos. A urna anterior entrega currículo eleitoral.
E quando alguém que teve desempenho modesto numa eleição municipal aparece pouco tempo depois prometendo conquistar dezenas de milhares de votos para deputado, perguntar de onde surgirá tamanha expansão eleitoral não é perseguição.
É matemática.
O eleitor tem direito de saber o tamanho da aposta
Ninguém precisa votar apenas em quem aparece bem colocado em pesquisas ou possui mandato. Tampouco uma derrota anterior condena alguém eternamente à derrota.
Mas existe uma diferença enorme entre candidatura e competitividade. Por isso, antes da eleição, vale pesquisar. Quantos votos esse candidato teve na última disputa? Qual sua trajetória? Qual sua experiência? Onde está sua base eleitoral? Qual partido ou federação integra? Quem são seus concorrentes dentro dessa legenda?
E, principalmente: se ele não conseguir a cadeira, para qual grupo político seu voto estará ajudando na matemática proporcional?
A legislação eleitoral deixa claro que, nas eleições proporcionais, primeiro é calculada a força eleitoral dos partidos e federações e, depois, as vagas são preenchidas segundo as regras de votação nominal e distribuição das cadeiras.
Portanto, voto para deputado não deveria ser tratado como aposta no escuro. Porque promessa cabe em qualquer panfleto. Experiência aparece no currículo. Força eleitoral aparece nas urnas.
E viabilidade não nasce porque alguém decidiu colocar “candidato a deputado” embaixo da fotografia. Pois quem precisa conhecer essa diferença é o eleitor. Porque candidato pode tentar novamente daqui a quatro anos. O voto desta eleição, não.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 447, página 7, de autoria do Jornalista Enrique Alliana
