Juiz suspende parte da reforma trabalhista de Milei na Argentina
Por Tribuna Foz dia em Notícias
Juiz suspende parte da reforma trabalhista de Milei na Argentina
Decisão provisória atinge 82 artigos da lei e barra mudanças em jornada, demissões e atuação de sindicatos. Governo ainda pode recorrer
A Justiça da Argentina suspendeu nesta segunda-feira, 30 de março de 2026, 82 artigos da reforma trabalhista do presidente Javier Milei, que previam mudanças nas regras de trabalho e nos direitos dos trabalhadores no país.
Entre os principais pontos suspensos estão:
• ampliação da jornada de trabalho para até 12 horas diárias, com possibilidade de compensação conforme a demanda, sem pagamento de horas extras;
• redução do valor das indenizações por demissão;
• possibilidade de parcelamento das indenizações;
• restrições ao direito de greve;
• regras que dificultavam o reconhecimento de vínculo empregatício.
A reforma foi aprovada pelo Senado argentino no fim de fevereiro, após uma sessão marcada por tensão, protestos nas ruas e divergências entre parlamentares.
O texto avançou como uma das principais apostas do governo para flexibilizar o mercado de trabalho. Desde então, sindicatos passaram a questionar a legalidade de vários pontos e recorreram à Justiça.
Segundo os jornais La Nación e Clarín, o juiz do trabalho Raúl Horacio Ojeda suspendeu a aplicação de 82 artigos de mais de 200 previstos na lei, atendendo a um pedido da Confederação Geral do Trabalho (CGT).
"Com a concessão da medida cautelar, ambas as partes (Estado e CGT) procurarão chegar à sentença definitiva o mais rápido possível e em paz social", afirmou o juiz Raúl Ojeda em sua decisão.
A decisão é provisória e vale até o julgamento definitivo. Ou seja, os artigos ficam sem efeito neste período, mas o governo pode recorrer para tentar reverter a decisão.
O governo Milei se manifestou por meio do Ministério do Capital Humano, que afirmou que serão esgotadas todas as instâncias judiciais necessárias para garantir a plena vigência da reforma trabalhista.
Em nota, a pasta disse que "reafirma seu compromisso na defesa desta lei, sancionada por ampla maioria do Congresso da Nação e concebida como ferramenta fundamental para a criação de emprego formal, a melhoria da competitividade e o fortalecimento da segurança jurídica de trabalhadores e empregadores".
"O Ministério rejeita as tentativas de quem, priorizando interesses corporativos e setoriais, pretende obstaculizar as reformas necessárias para superar o desemprego e a estagnação que caracterizaram etapas anteriores de nossa história."
Disputa interna
De acordo com os jornais La Nación e Clarín, a disputa mantém o embate entre o governo Milei, que defende a flexibilização das regras trabalhistas, e os sindicatos, que veem perda de direitos nas mudanças aprovadas pelo Congresso.
Ao Estúdio i, o jornalista Guga Chacra analisou que a reforma aproxima a Argentina do modelo dos Estados Unidos e se afasta da tradição do país, alvo de críticas da ala liberal, que considera essas regras ultrapassadas e um entrave ao crescimento econômico.
“Por outro lado, há críticas de que a reforma tira proteção dos trabalhadores, principalmente dos sindicatos, como a CGT, que tem um histórico forte desde a época de Juan Domingo Perón. Milei deve recorrer e ainda tem chance de reverter, e esse tema deve dominar o debate porque, na Argentina, a economia tem muito peso”, afirmou.
O que muda com a suspensão
A decisão atinge o núcleo da reforma, que alterava regras de jornada, demissões e organização do trabalho.
Entre os pontos suspensos estão a possibilidade de ampliar a jornada diária com compensação de horas, a redução e o parcelamento das indenizações e as restrições ao direito de greve, como a exigência de funcionamento mínimo durante paralisações, segundo o La Nación.
A reforma também previa mudanças nas formas de contratação, e parte dessas regras deixa de valer com a decisão. Ficam suspensas medidas que dificultavam o reconhecimento de vínculo empregatício e ampliavam a classificação de trabalhadores como autônomos, incluindo profissionais de aplicativos.
Também perde efeito a regra que eliminava o princípio de interpretação da lei em favor do trabalhador, segundo o La Nación.
As mudanças que afetavam sindicatos também foram atingidas.
De acordo com o Clarín, deixam de valer regras que limitavam assembleias, reduziam a atuação de representantes e restringiam a proteção sindical. Também ficam suspensas as medidas que priorizavam acordos firmados dentro das empresas, abrindo espaço para negociações com possível redução salarial.
A decisão ainda interrompe outros pontos relevantes da reforma. Segundo o La Nación, seguem sem efeito:
• a revogação da lei do teletrabalho;
• a criação de banco de horas por acordo individual;
• o fracionamento obrigatório das férias;
• a criação do Fundo de Assistência ao Trabalhador (FAL), que substituiria indenizações.
O juiz avaliou que o fundo não garantiria proteção adequada e poderia gerar impactos na Previdência. Ao justificar a decisão, o juiz apontou risco de prejuízos imediatos.
Ao Clarín, ele citou o “perigo da demora” e afirmou que a aplicação das regras poderia causar danos irreparáveis caso a lei seja considerada inconstitucional no julgamento final.
Fonte: G1
