QUATRO MESES PARA UM CLÍNICO: Na gestão do Prefeito Silva e Luna, até para ficar doente é preciso planejamento?
Por Tribuna Foz dia em Notícias
QUATRO MESES PARA UM CLÍNICO
Na gestão do Prefeito Silva e Luna, até para ficar doente é preciso planejamento?
Saúde em Foz: Fique doente hoje e tente consulta daqui a quatro meses;Quatro meses na fila e a saúde de Foz pede paciência ao paciente
Em Foz do Iguaçu, pelo relato de um morador publicado nas redes sociais, parece que o cidadão precisa consultar a agenda antes de adoecer.
Dor de cabeça? Aguarde. Mal-estar? Entre na fila. Precisa de um clínico geral? Pelo caso denunciado por um usuário da UBS Profilurb II, talvez seja melhor ter paciência, muita paciência.
Segundo postagem feita na página “Elogios e Reclamações de Foz do Iguaçu”, um morador procurou atendimento na manhã de 15 de setembro de 2026 e afirmou ter recebido uma resposta difícil de engolir: a consulta com clínico geral teria sido marcada para dali a quatro meses.
Quatro meses.
Não estamos falando de procedimento de altíssima complexidade. O relato se refere a uma consulta com clínico geral dentro da Atenção Básica.
A justificativa, segundo o cidadão, teria sido que o médico responsável pela região estava de férias e não havia substituto disponível.
Se o relato estiver correto, o problema ultrapassa a ausência temporária de um profissional. Médico tem férias e, evidentemente, tem direito a elas. Quem não pode entrar de férias junto com ele é o atendimento público.
E aí começa a pergunta que precisa chegar ao gabinete do prefeito General Joaquim Silva e Luna, ao vice-prefeito Ricardo Nascimento e à Secretaria Municipal de Saúde: quem administra a saúde de uma cidade não consegue prever que servidor também tira férias?
O médico sai de férias e o paciente ganha quatro meses de espera?
O morador escreveu que deixou a unidade com sentimento de “total descomprometimento” e afirmou não ter recebido alternativa de atendimento com outro profissional.
Esse é o ponto central.
Não se trata de atacar médico, enfermeiro, recepcionista ou qualquer servidor que esteja diariamente dentro das unidades enfrentando a demanda da população. O funcionário da ponta trabalha com a estrutura que recebe.
A responsabilidade política e administrativa está acima. Está na Secretaria de Saúde, que precisa organizar pessoal, escalas e substituições. Está no governo municipal, responsável por definir prioridades e cobrar resultados. E, no topo dessa estrutura, está o prefeito.
Governar não é apenas aparecer quando existe anúncio positivo. Administrar também significa assumir a responsabilidade quando o cidadão bate à porta de uma UBS e encontra uma fila que, segundo o relato, atravessa quatro meses do calendário.
A Prefeitura mantém oficialmente a UBS Profilurb II dentro da estrutura da Atenção Básica municipal. Portanto, estamos falando de um equipamento que integra diretamente a rede municipal de saúde.
General, e se fosse alguém da sua família?
A pergunta pode parecer provocativa, mas traduz perfeitamente a indignação popular. Se o prefeito Joaquim Silva e Luna precisasse de atendimento médico para alguém de sua família, consideraria razoável ouvir: “Volte daqui a quatro meses”?
Provavelmente qualquer pessoa com condições financeiras procuraria atendimento particular. Mas é exatamente aí que mora a diferença. O prefeito pode ter alternativas. O trabalhador que depende exclusivamente do SUS muitas vezes não tem.
Quem paga aluguel, alimentação, energia, transporte e impostos talvez não consiga simplesmente tirar algumas centenas de reais do orçamento doméstico para pagar consulta particular. Para esse cidadão, a UBS não é uma opção entre várias. É a opção.
Por isso, quatro meses não são apenas quatro páginas viradas no calendário. São aproximadamente 120 dias convivendo com um problema de saúde sem saber exatamente o que está acontecendo. E saúde não deveria funcionar na base do “aguarde para ver”.
Depois da consulta, começa outra maratona
Existe ainda outra preocupação relatada frequentemente pelos usuários: conseguir a consulta é apenas a primeira etapa. O paciente finalmente chega ao médico. O profissional solicita exames. Então começa uma nova espera.
Depois dos exames, ainda pode existir outra dificuldade para conseguir retornar ao profissional e apresentar os resultados. Transforma-se aquilo que deveria ser uma linha de cuidado em uma corrida de obstáculos burocráticos.
Consulta. Fila.
Exame. Fila.
Retorno. Fila.
Especialista. Outra fila.
E o paciente? Continua esperando.
O próprio sistema público municipal disponibiliza ferramentas para acompanhamento da situação de filas, exames, procedimentos e agendamentos. Mas tecnologia nenhuma substitui aquilo que realmente interessa ao cidadão: profissional disponível e atendimento em prazo razoável.
Não adianta modernizar a consulta da fila se o problema continuar sendo o tamanho dela.
PACIENTE TEM QUE ESPERAR
Nas redes sociais, a indignação da população não ficou sozinha
A publicação provocou uma sequência de comentários de moradores relatando dificuldades semelhantes ou criticando a administração municipal. Paloma Marcelino afirmou: “O pior é que todas as unidades de saúde estão assim. Um descaso total com a população”.
Adriana da Silva resumiu a situação com ironia: “As UBS de Foz tá pior que clínica particular. Temos que agendar para ficar doente”. A frase é sarcástica, mas revela uma sensação preocupante. Quando o cidadão começa a brincar dizendo que precisa “agendar para ficar doente”, é porque a confiança no sistema está sendo corroída.
Felipe Leite afirmou estar aguardando consulta com endocrinologista havia dois meses e relatou ocupar a posição 1.022 na fila. Grace Poca questionou: “Meu Deus, a pessoa pode morrer em 4 meses. Isso não é normal!”
Outro comentário afirmou que tratamento de canal teria vaga apenas para 2028. São relatos de usuários nas redes sociais e devem ser tratados como relatos, não como estatísticas oficiais. Mas ignorá-los também seria um erro. Quando várias pessoas aproveitam uma denúncia para contar experiências semelhantes, o poder público deveria, no mínimo, verificar o que está acontecendo e apresentar números.
Quantos médicos estão atendendo atualmente nas UBS? Quantas equipes estão incompletas? Quantos profissionais estão afastados ou de férias sem substituição? Qual é o tempo médio para consulta com clínico geral? Quantas pessoas aguardam especialistas? Quantos pacientes estão esperando exames? Essas são respostas que a população merece receber.
O secretário de saúde não pode ser apenas o administrador da fila
A Secretaria Municipal de Saúde existe justamente para planejar a rede. Férias de servidor não são fenômeno meteorológico inesperado. Não aparecem repentinamente no horizonte como tempestade. São previsíveis.
Se determinado profissional entra em férias e uma população inteira vinculada àquela área fica sem alternativa equivalente, cabe à administração explicar por que não houve cobertura.
E cabe ao secretário municipal de Saúde apresentar solução. Porque secretário não pode ser simplesmente o funcionário graduado que administra a fila. Precisa trabalhar para reduzi-la.
Se faltam médicos, o governo precisa explicar por quê e quais medidas tomou. Se existe dificuldade de contratação, mostre os processos. Se houve concurso, contratação ou credenciamento, apresente os números. Se há profissionais disponíveis em outras unidades, organize o fluxo.
O que não pode ser naturalizado é mandar o cidadão esperar meses e transformar isso em rotina administrativa.
Prefeito é para governar agora, não no último dia do mandato
Joaquim Silva e Luna foi eleito prefeito para administrar Foz do Iguaçu durante quatro anos. Isso não significa receber quatro anos de carência para começar a entregar resultados.
Mandato de quatro anos não é garantia estendida contra cobrança popular. A população pode, e deve, fiscalizar desde o primeiro dia.
Aliás, quanto mais o mandato avança, menos espaço existe para colocar todos os problemas na conta da administração anterior. Chega um momento em que a gestão precisa assumir a própria fotografia. Se faltam médicos hoje, é preciso explicar. Se as filas cresceram, é preciso responder. Se uma UBS não possui substituto para profissional em férias, é preciso corrigir.
O prefeito ocupa justamente o cargo máximo do Executivo para coordenar essas soluções.
E o vice-prefeito, onde entra nessa história?
Ricardo Nascimento também precisa entrar no debate. Vice-prefeito não pode ser figura decorativa durante a administração e protagonista somente quando chega uma nova eleição.
Com a disputa eleitoral de 2026 em curso, a população tem todo o direito de confrontar propostas de campanha com a atuação administrativa já realizada. Antes de prometer o que pretende fazer em outro cargo, cabe responder objetivamente qual foi sua participação nas soluções construídas pelo governo do qual faz parte.
Quais medidas defendeu para reduzir as filas? Quais ações apresentou para melhorar as UBS? Que providências cobrou internamente? Quais resultados concretos pode mostrar? Essas perguntas são mais úteis ao eleitor do que qualquer slogan.
A conta política chega junto com a fila
Um dos comentários publicados resumiu a insatisfação em poucas palavras: “problema é o gestor da cidade”. É uma opinião de um cidadão, mas toca no centro da responsabilidade administrativa.
O prefeito comanda o Executivo. O vice integra a administração eleita. O secretário comanda a pasta da Saúde. Cada qual possui atribuições diferentes, mas nenhum deles pode agir como mero espectador diante das deficiências da rede municipal.
É muito fácil aparecer para inauguração, fotografia, assinatura, anúncio e postagem institucional. Difícil é aparecer diante do cidadão que recebeu a informação de que precisará aguardar meses por atendimento. É nesse momento que se mede capacidade de gestão.
Foz não precisa aprender a “agendar para ficar doente”
Talvez a frase mais simbólica de toda a discussão seja justamente aquela publicada em tom de deboche: “Temos que agendar para ficar doente.” É engraçada por alguns segundos. Depois deixa de ser. Porque doença não marca horário. Hipertensão não espera agenda. Diabetes não consulta calendário eleitoral. Uma alteração clínica potencialmente grave não pergunta se o médico está de férias.
E justamente por isso existe uma rede pública que deveria ser organizada para oferecer continuidade de atendimento. O cidadão não está pedindo favor. Não está batendo à porta da Prefeitura atrás de cortesia. Saúde pública é política pública e direito constitucional.
Quatro meses é tempo demais para uma desculpa
O episódio relatado na UBS Profilurb II merece resposta oficial. A Secretaria de Saúde deveria esclarecer se o prazo informado realmente foi de quatro meses, quantos médicos atendem atualmente naquela unidade, por que não teria sido disponibilizado substituto e quais alternativas estão sendo oferecidas aos moradores daquela região.
Mais do que isso: prefeito, vice e secretário precisam explicar qual é o plano concreto para impedir que situações semelhantes se repitam.
Porque uma administração pode produzir discursos, vídeos, solenidades e promessas. Mas o cidadão mede governo de outra maneira. Mede quando precisa de médico. Mede quando precisa de exame. Mede quando procura uma UBS. Mede quando sente dor. E, principalmente, mede quando recebe como resposta: “Espere.”
Se o relato publicado estiver correto, em Foz do Iguaçu a espera por um clínico geral chegou a quatro meses. Para quem governa, talvez sejam apenas quatro meses no calendário. Para quem está doente, podem parecer uma eternidade. E é justamente por isso que a pergunta precisa continuar ecoando pelos corredores da Prefeitura: se fosse alguém da família de quem governa, também mandariam voltar daqui a quatro meses?
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 446, páginas 8 e 9, de autoria do Jornalista Enrique Alliana



