Mais de 30 deputados argentinos repudiam Milei por ataques ao Brasil
Por Tribuna Foz dia em Notícias
Mais de 30 deputados argentinos repudiam Milei por ataques ao Brasil
Um grupo de mais de 30 parlamentares apresentou hoje na Câmara dos Deputados em Buenos Aires uma proposta de nota formal de repúdio contra Javier Milei pelas declarações "extremamente graves" feitas pelo presidente argentino contra autoridades brasileiras em São Paulo.
No sábado, Milei referiu-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes como "lixo careca" e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "presidiário" em discurso feito no palco da cerimônia de confirmação de Flávio Bolsonaro como candidato do PL às eleições presidenciais de outubro.
"As declarações de Milei nos envergonham como argentinos", afirmou o líder da iniciativa no Congresso, o deputado opositor Jorge Taiana, que foi ministro das Relações Exteriores nos mandatos de Nestor e de Cristina Kirchner, e ministro da Defesa de Alberto Fernández.
Para o grupo de 30 parlamentares que assina o documento as declarações de Milei "constituem flagrante interferência nos assuntos internos de outro Estado, violando princípios fundamentais do direito internacional, como a não intervenção e a autodeterminação dos povos, pilares que historicamente norteiam a política externa argentina".
O documento, cujo número de assinaturas vem aumentando com novas adesões, também critica a inclusão de funcionários de carreira do Ministério das Relações Exteriores da Argentina na comitiva de Milei, que teve caráter pessoal e político-partidário, sem qualquer agenda de Estado que justificasse a mobilização dos funcionários públicos, na visão dos deputados. De acordo com eles, "tal conduta se desvia das obrigações constitucionais e dos princípios de neutralidade que devem reger as ações do serviço diplomático".
A assessoria parlamentar de Taiana explicou ao UOL que a nota foi redigida no domingo e apresentada hoje cedo para ser submetida às comissões, antes de ser levada à votação em plenário. O trâmite, no entanto, deve ser difícil; e a aprovação, improvável. A Comissão de Relações Exteriores da Câmara, por exemplo, é liderada por Juliana Santillán Juárez Brhaim, membro da coalizão governista A Liberdade Avança, liderada pelo próprio presidente Milei.
A oposição é minoria no plenário —tem apenas 101 dos 257 assentos da Câmara dos Deputados—, mas a assessoria de Taiana diz que pode contar com o apoio incerto de até 49 outros parlamentares chamados de "flutuantes" para fazer a moção passar. Além disso, a aprovação se daria pela maioria dos votos dos deputados presentes em plenário no momento da votação; não necessariamente pelo total dos deputados da casa.
No Brasil, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, a dar explicações, e chamou de volta o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli. Na diplomacia, ambos os gestos transmitem forte condenação. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro disse que "não há precedentes" para "agressões" como essa em 203 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
O tom vulgar das declarações de Milei foi acompanhado em Brasília pela réplica do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou o presidente argentino de "palhaço".
No plano mais amplo, esse embate reflete uma divisão político-ideológica maior. Em toda a América do Sul, apenas Brasil, Uruguai, Guiana e Suriname são governados por presidentes de esquerda, enquanto outros sete países da região —Argentina, Bolívia, Paraguai, Chile, Equador, Peru e Colômbia— são governados por políticos da direita, em suas diversas vertentes. A Venezuela é um caso à parte: embora o país seja em tese governado pela esquerda, o atual governo, de Delcy Rodriguez, que era vice de Nicolás Maduro, passou a operar sob controle dos Estados Unidos de Donald Trump e do secretário de Estado dele, Marco Rubio.
Milei busca posicionar-se como um líder de vanguarda dessa onda de direita apelidada de "onda azul". Nesse sentido, a vitória de Flávio Bolsonaro em outubro, no Brasil, coroaria o que esse setor político tenta caracterizar como uma onda irrefreável, destinada a varrer do mapa uma esquerda caracterizada no discurso do presidente argentino como corrupta e perversa. Depois da passagem por São Paulo, Milei seguiu para o Peru e a Colômbia, onde foi saudar os presidentes recém-eleitos Keiko Fujimori e Abelardo de las Espriella, respectivamente.
Fonte: Uol
