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Quem é Fernando Cerimedo, operador político ligado à extrema direita na América Latina

Por Tribuna Foz dia em Notícias

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Quem é Fernando Cerimedo, operador político ligado à extrema direita na América Latina

Empresa do argentino prestou serviços a campanhas de Milei, Rodrigo Paz e Nasry Asfura e mantém conexões com figuras próximas a Trump

A prisão do operador político Fernando Cerimedo na Bolívia provocou uma escalada de suspeitas a respeito da relação do argentino com campanhas da extrema direita na América Latina.

Cerimedo vive na Bolívia desde 2025, quando começou a trabalhar na campanha que levou o democrata-cristão Rodrigo Paz à Presidência do país andino. No dia 18 de agosto, ele foi detido sob a acusação de ter encomendado o assassinato da advogada boliviana Nadia Beller, que é sua ex-namorada.

Entre as várias denúncias que realizou após sobreviver ao atentado, Beller citou suspeitas de diversas atividades relacionadas não apenas à Bolívia, como também a outros países. Segundo ela, Cerimedo possui imóveis nos quais funcionam as chamadas “fazendas de bots”, locais onde milhares de celulares estão ligados 24 horas por dia, manejados por ferramentas de inteligência artificial que mantêm ativas contas falsas que propagam desinformação.

Dias após o depoimento, a polícia boliviana descobriu um imóvel na região de Aranjuez, nos arredores de La Paz, no qual foi encontrada uma das tais “fazendas de bots”, com 43 mil celulares funcionando.

O empresário argentino foi acusado pelo Ministério Público da Bolívia de tentativa de feminicídio e está em prisão preventiva por ao menos 180 dias. Em paralelo, foi aberta uma investigação por suposto enriquecimento ilícito, em um caso que envolve a apuração dos contratos relacionados às “fazendas de bots”.

Numen e seus clientes

O imóvel onde os celulares foram encontrados pertence à empresa Numen, que pertence a Cerimedo e prestou serviços não apenas à campanha de Paz, como também ao atual presidente da Argentina, Javier Milei, em sua vitória eleitoral de 2023, e a Nasry Asfura, o empresário que venceu as eleições presidenciais em Honduras, em novembro de 2025.

Ademais, antes de criar a Numen, Cerimedo teria prestado os mesmos serviços — por meio de uma empresa com outro nome — à campanha que levou ao rechaço da proposta constitucional do Chile no plebiscito de setembro de 2022, cuja assembleia constituinte tinha clara maioria de esquerda.

Vale lembrar que, além dos trabalhos prestados em Argentina, Bolívia, Chile e Honduras, Cerimedo também ficou conhecido no Brasil em 2023, quando foi requisitado pela família Bolsonaro para apresentar as supostas provas de que as urnas eletrônicas usadas nas eleições presidenciais de 2022 eram fraudadas.

Em março de 2023, o então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), cassado em dezembro de 2025, apresentou o argentino como um suposto especialista em sistemas eleitorais. Meses depois, Cerimedo não apresentou as tais provas, mas já estava com outra prioridade, ao ser incorporado à campanha eleitoral que levou o líder de extrema direita Milei à Presidência da Argentina, no segundo semestre daquele mesmo ano.

Numen nasce nos Estados Unidos

O primeiro semestre de 2023 não marcou apenas a relação de Cerimedo com a família Bolsonaro, mas também com os Estados Unidos. Em maio daquele ano, foi criada a empresa Numen Advisors LLC, não na Argentina, onde o operador político vivia à época, mas no endereço 13499 Biscayne Boulevard, North Miami.

Segundo uma investigação do jornal CubaDebate, o arquivo oficial da Divisão de Corporações da Flórida identifica a empresa sob o número L23000254200 e permite o acesso aos seguintes documentos: o contrato social, uma alteração de dezembro de 2023 e o relatório anual de 2024.

O nome de Fernando Cerimedo consta nos registros desde a documentação inicial. Após a alteração de dezembro de 2023, foi incluído o nome de Aldo Arteaga entre os sócios. Atualmente, os arquivos registram que a empresa estaria “inativa” por não apresentar o devido relatório anual.

A criação da Numen em maio de 2023 chama atenção porque aconteceu três meses antes do início oficial da campanha presidencial da Argentina naquele mesmo ano. A investigação do CubaDebate mostra documentos que comprovam a prestação de serviços à campanha de Milei por meio de um contrato no qual também participa a consultoria do lobista argentino-estadunidense Damián Merlo, sediada em Miami. A reportagem do jornal cubano aponta ainda que Merlo foi uma das figuras que fizeram a aproximação entre Cerimedo e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Um desses documentos é um memorando, com data de 4 de setembro de 2023, que foi submetido ao Departamento de Justiça norte-americano e é assinado tanto por “Fernando Cerimedo, CEO da Numen” quanto por “Damián Merlo, sócio-gerente da LAAG”. O documento relata a conformação de um contrato de colaboração de ambas as empresas com a campanha de Milei naquele ano.

Além disso, a Numen oferecia outro serviço por meio da criação do jornal La Derecha Diario, que difunde notícias com viés de extrema direita para diferentes países que têm o espanhol como seu principal idioma. Esses trabalhos teriam servido, também, para a aproximação do próprio Cerimedo com entidades norte-americanas, segundo a investigação do meio cubano.

O memorando enviado ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos também informa que o contrato foi elaborado em conformidade com a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA, por sua sigla em inglês), que exige a divulgação de contratos, atividades, pagamentos e clientes de indivíduos e empresas que atuam nos EUA em nome de entidades estrangeiras.

Além de Carlson, Merlo colocou o colega argentino em contato com figuras como Mauricio Claver-Carone, ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); Viviana Bovo, ex-assessora de Marco Rubio; Mario Díaz-Balart e María Elvira Salazar, parlamentares da Flórida.

Um relatório do Departamento de Justiça, com data de fevereiro de 2025, com informações entregues pela empresa Numen por meio da lei FARA, apresenta dezenas de registros de reuniões, mensagens e e-mails entre a empresa de Cerimedo e membros do gabinete de Salazar, e também com funcionários da Subcomissão de Assuntos do Hemisfério Ocidental.

Intermediários entre Numen e Trump

Porém, o principal documento apresentado pela investigação do CubaDebate é a Declaração Suplementar 6898, registrada pelo Departamento de Justiça em 30 de julho de 2026, mas que descreve reuniões entre Merlo e Cerimedo com figuras da alta cúpula do governo dos Estados Unidos, todas elas com algum grau de proximidade com Donald Trump.

Entre esses nomes estão Gavin Wax, chefe de gabinete da subsecretária Sarah Rogers; Christopher Landau, subsecretário de Estado; Ana Quintana, do Planejamento Político; Viviana Bovo, ex-assessora de Marco Rubio; e Joseph Humire, identificado como chefe de Assuntos de Segurança para as Américas e diretor do Centro para uma Sociedade Livre e Segura, ligado à Fundação Heritage e com experiência em trabalhos na Venezuela, em Cuba e no Irã.

Curiosamente, essas reuniões aconteceram no dia 13 de janeiro, dez dias após a agressão militar contra a Venezuela.

Outra figura importante nesse círculo é Brad Parscale, ex-gerente de campanhas de Donald Trump desde 2016. Ele não participou desses encontros, mas passou a estar ligado aos empreendimentos tecnológicos de Cerimedo na América Latina a partir de 2025. A investigação cubana afirma que Parscale participa, com alguma frequência, de reuniões na residência de Trump, em Mar-a-Lago, e que possui acesso rápido ao secretário de Estado Marco Rubio e à congressista republicana María Elvira Salazar.

Parscale é próximo da família Trump desde 2012 e foi um dos responsáveis pela estratégia digital da campanha presidencial de 2016, baseada em publicidade direcionada a diferentes públicos.

Em setembro de 2025, a empresa de Parscale, Clock Tower X, foi contratada pelo governo de Israel para realizar uma campanha destinada a melhorar a imagem do país, afetada pelo massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza iniciado em outubro de 2023. O contrato, revelado pelo Wall Street Journal, previa o pagamento de US$ 50 milhões pelo envio de milhões de mensagens de texto geradas por inteligência artificial para celulares de cidadãos norte-americanos.

Fonte: Opera Mundi

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