A salvação da direita será menos bolsonarismo e mais direitismo?
Por Tribuna Foz dia em Notícias
ENTRE A CRUZ E A ESPADA
A salvação da direita será menos bolsonarismo e mais direitismo?
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2026 deixou uma pergunta indigesta atravessada na garganta da ala conservadora: até quando a direita brasileira continuará confundindo fidelidade a uma família com compromisso com um projeto político?
A direita perdeu a eleição. Mas será que aprendeu a lição?
A extrema direita foi derrotada nas urnas. E, gostem ou não, a matemática eleitoral costuma ser mais cruel que qualquer discurso inflamado nas redes sociais.
Existe uma realidade que alguns conservadores parecem ignorar. No Brasil, há muito mais trabalhadores do que patrões. Quem pretende conquistar a Presidência precisa conversar com quem acorda às cinco da manhã, pega ônibus lotado e enfrenta dificuldades para pagar as contas. Não basta conquistar aplausos de empresários, influenciadores digitais e grupos de WhatsApp.
Enquanto uns pensam em 2028, outros ainda brigam com 2026
A derrota de Flávio Bolsonaro deveria servir como oportunidade para uma profunda reflexão dentro do Partido Liberal.
Mas, enquanto os conservadores mais pragmáticos procuram entender onde erraram, os radicais continuam presos ao velho repertório: questionamento das urnas, pedidos de anulação da eleição, discursos golpistas e até fantasias de impeachment.
Parece que alguns ainda não perceberam que eleição se ganha com votos, não com ataques de nervos.
O problema é que, enquanto essa turma permanece olhando pelo retrovisor, o calendário eleitoral continua avançando.
Em 2028 haverá eleições municipais. Prefeitos e vereadores precisarão conquistar eleitores de carne e osso, não apenas seguidores dispostos a compartilhar vídeos de indignação.
A direita que continuar fazendo campanha para uma eleição que já terminou corre o risco de perder a próxima antes mesmo de começar.
O PL precisa de lideranças ou de devotos?
O grande dilema do PL é decidir se pretende continuar sendo uma extensão política da família Bolsonaro ou transformar-se em um partido conservador com identidade própria.
A derrota de Flávio não significa necessariamente o fim do bolsonarismo. O movimento conserva uma base expressiva e capacidade de mobilização.
Entretanto, uma coisa é mobilizar militantes. Outra, muito diferente, é conquistar a maioria do eleitorado.
A direita precisa compreender que patriotismo não se mede pelo tamanho da bandeira na janela, conservadorismo não se resume a repetir slogans religiosos e competência administrativa não nasce de fotografias ao lado de Bolsonaro.
Um partido que depende eternamente de um sobrenome corre o risco de ficar politicamente órfão quando esse sobrenome deixa de produzir vitórias.
Menos gritaria, mais propostas
Uma direita verdadeiramente programática deveria defender responsabilidade fiscal, liberdade econômica, segurança pública, respeito à Constituição e eficiência administrativa.
Nada disso exige ataques permanentes ao Supremo Tribunal Federal, ameaças de ruptura institucional ou a fabricação diária de inimigos imaginários.
O conservadorismo clássico valoriza estabilidade, instituições e prudência. Já o radicalismo político frequentemente prefere incendiar a casa para depois reclamar da falta de moradia.
A diferença é simples: o conservador procura preservar aquilo que funciona e melhorar o que está errado. O radical parece acreditar que, se não puder mandar em tudo, ninguém mais merece governar.
Foz do Iguaçu: O teste começa dentro de casa
Em Foz do Iguaçu, onde o PL possui o prefeito Joaquim Silva e Luna e representantes na Câmara Municipal, a reflexão deveria começar imediatamente.
O eleitor municipal de 2028 não estará interessado apenas em saber quem esteve mais próximo de Bolsonaro ou quem publicou mais fotografias vestindo verde e amarelo.
Estará interessado em saúde funcionando, ruas conservadas, segurança, transporte público eficiente e uma administração capaz de apresentar resultados concretos.
De nada adianta defender a família brasileira nos palanques enquanto as famílias enfrentam dificuldades para conseguir atendimento médico ou resolver problemas básicos da cidade.
O eleitor pode até admirar Bolsonaro, mas não é obrigado a aceitar incompetência administrativa em nome dessa admiração.
O Bolsonarismo pode ser forte. Mas a direita precisa ser maior
O desafio dos conservadores é abandonar a ideia de que qualquer crítica ao bolsonarismo representa traição.
Discordar de uma liderança não significa abandonar princípios. Significa reconhecer que partidos políticos devem sobreviver aos seus líderes.
A direita brasileira precisa decidir se deseja disputar o futuro ou continuar administrando ressentimentos do passado.
Porque, se a estratégia para 2028 for apenas repetir os discursos de 2026, trocar candidatos e aumentar o volume dos gritos, talvez o resultado também seja repetido.
Afinal, uma direita que não consegue pensar além de Bolsonaro dificilmente conseguirá convencer o Brasil a pensar além de Lula.
E fica a pergunta que muitos radicais preferem não responder: o PL quer formar novos líderes ou continuar formando admiradores de um único líder? E convenhamos que os dois maiores líderes, um está preso e outro fugido.
Se a resposta for ficar com o preso e o foragido, a esquerda poderá começar a agradecer antecipadamente.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 449, página 4 de autoria do Jornalista Enrique Alliana
