BTR Transportes comete assédio eleitoral e é obrigada a reparar irregularidades
Por Tribuna Foz dia em Notícias
ASSÉDIO ELEITORAL
BTR Transportes comete assédio eleitoral e é obrigada a reparar irregularidades
Empresário pode mandar na empresa. Na consciência do trabalhador, não. O voto do funcionário não vem no contracheque
Quem não se lembra das eleições de 2022, quando empresários Brasil afora resolveram transformar seus estabelecimentos comerciais quase em comitês eleitorais?
Um dos episódios mais lembrados daquele período envolveu Luciano Hang, o popular “Véio da Havan”, em meio ao ambiente político extremamente polarizado daquele ano, dizia que se o seu candidato não ganhasse a eleição, ele fecharia lojas e até iria embora do Brasil.
Passaram-se quatro anos. Chegamos às eleições de 2026 e, pelo jeito, ainda tem empresário precisando aprender uma lição bastante elementar: o funcionário vende sua força de trabalho, não o seu voto, sua consciência ou sua liberdade política.
E Foz do Iguaçu acaba de ganhar um exemplo nada agradável dessa velha confusão.
MPT entra em cena e a brincadeira acaba
Na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições, o Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) publicou uma notícia que deveria servir de leitura obrigatória para empresários que confundem CNPJ com título de eleitor.
Segundo o próprio MPT-PR, após a comprovação de assédio eleitoral, a BTR Transportes, de Foz do Iguaçu, firmou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o órgão. O acordo, conforme a publicação, havia sido assinado ainda em julho.
E aqui não estamos falando de fofoca de esquina, conversa de WhatsApp ou disputa entre adversários políticos.
Estamos falando de informação publicada oficialmente pelo Ministério Público do Trabalho.
De acordo com o órgão, vídeos publicados nos perfis da empresa nas redes sociais foram anexados à denúncia e serviram como comprovação do assédio eleitoral. O material possuía conteúdo político e utilizava imagens de trabalhadores. Os funcionários eram questionados sobre o significado do número 13, numa associação depreciativa, e, segundo o MPT, aparentavam não ter conhecimento pleno do verdadeiro objetivo da gravação.
Que criatividade!
O problema é que eleição não é campanha publicitária da empresa e trabalhador não é figurante contratado para propaganda político-partidária.
Patrão escolhe caminhão; funcionário escolhe candidato
Talvez seja necessário desenhar. O empresário pode escolher a marca do caminhão, definir a rota, comprar ônibus, contratar funcionários, administrar garagem, negociar fretes e decidir até a cor da fachada.
Mas existe uma coisa que não está no patrimônio da empresa: o voto do trabalhador.
Esse pertence exclusivamente ao cidadão.
Segundo o MPT-PR, com a assinatura do TAC, a empresa comprometeu-se a não praticar nem permitir condutas que configurem assédio eleitoral. Entre elas estão oferecer dinheiro para obter manifestação política de empregados; ameaçar, constranger ou orientar apoio ou voto em candidatos ou partidos; e obrigar, impor ou induzir trabalhadores a participar de manifestações político-partidárias.
Traduzindo para uma linguagem que dispensa departamento jurídico: emprego não pode virar instrumento de pressão eleitoral.
Teve TAC, retirada do vídeo e retratação
O acordo não ficou apenas naquele tradicional “não faço mais”.
O MPT informou também que a BTR Transportes ficou obrigada a retirar do ar o vídeo apontado como irregular e publicar uma nota de retratação pelo mesmo meio em que a ilicitude havia sido veiculada — ou seja, em vídeo.
É aquela velha situação: quando a rede social vira palco para ultrapassar limites, a própria rede social também pode virar espaço para explicar que o limite existia.
E tudo isso poderia ser evitado com uma regra bastante simples: empresa é local de trabalho, não curral eleitoral.
O funcionário pode votar na direita, na esquerda, no centro, anular o voto ou escolher o candidato que bem entender. Pode gostar do candidato preferido do patrão ou detestá-lo. É um direito individual.
O salário pago no fim do mês remunera o trabalho realizado. Não compra opinião política.
Dinheiro compra frota. não compra voto
A democracia brasileira já deveria ter superado a época em que o poder econômico servia como ferramenta para tentar influenciar a vontade política de trabalhadores.
O voto é secreto justamente para que ninguém, nem patrão, político, sindicato, chefe ou qualquer outro poderoso de plantão tenha o direito de exigir fidelidade dentro da urna.
Quem administra uma grande empresa precisa compreender que poder econômico não significa poder absoluto.
Pode ter dezenas, centenas ou milhares de veículos. Pode movimentar milhões. Pode possuir empresas, imóveis, influência e prestígio.
Pode até ser considerado o maior empresário do ramo de transportes da região.
Mas existe uma coisa que nenhum tamanho de patrimônio altera: ele não está acima da lei.
E, principalmente, não é dono do voto de seus funcionários.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 444, página 10, de autoria do Jornalista Enrique Alliana
