Começam a aparecer os "traidores da pátria" ou melhor os "traidores de Foz?
Por Tribuna Foz dia em Notícias
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Começam a aparecer os "traidores da pátria" ou melhor os "traidores de Foz?
Alguns vereadores são eleito por Foz, mas trabalhando para exportação; Outros são filhos da terra, mas com coração em outro domicílio eleitoral
De tempos em tempos, a política brasileira redescobre palavras fortes para explicar comportamentos antigos. "Traidor da pátria" é uma delas. Expressão pesada, histórica, quase teatral, que Ulysses Guimarães utilizou para lembrar que brincar com a Constituição é brincar com a própria democracia. Mas, como tudo no Brasil ganha versão municipal, talvez Foz do Iguaçu esteja prestes a popularizar um novo conceito: os "traidores de Foz".
Patriotismo municipal com prazo de validade
Não se trata de espionagem internacional, nem de conspirações cinematográficas. Nada tão sofisticado. Em Foz do Iguaçu, a versão local da "traição" parece ser mais simples e até burocrática: pedir votos para candidatos de fora enquanto se ocupa um cargo conquistado com votos de dentro.
Mandato Delivery: Sai de Foz e chega em outro domicílio eleitoral
É quase uma inovação política. Uma espécie de exportação de prestígio eleitoral financiada pela confiança do eleitor iguaçuense.
Durante as eleições municipais, o discurso é sempre o mesmo. Fala-se de pertencimento, de compromisso com a cidade, de conhecer cada buraco na rua, cada fila no hospital e cada problema da educação. O candidato se apresenta como "filho da terra", defensor incondicional dos interesses locais, alguém que vai lutar por Foz "custe o que custar". O eleitor acredita, vota e entrega o mandato. Até aí, tudo dentro do roteiro tradicional da política brasileira.
Traição Light: Quando o mandato muda de endereço
O problema começa quando o mandato ainda está quente e a prioridade passa a ser ajudar candidatos de outras cidades a se elegerem deputados. De repente, aquela defesa apaixonada da representatividade local vira apenas um detalhe de campanha já vencida. Foz do Iguaçu, que antes era prioridade absoluta, torna-se coadjuvante em alianças regionais.
É nesse ponto que nasce a figura do "traidor de Foz do Iguaçu". Não no sentido dramático da palavra, mas no sentido simbólico de quem troca a cidade que o elegeu por acordos políticos mais convenientes.
Vereador Cabo Cassol
O caso do vereador Cabo Cassol ilustra bem essa lógica curiosa. Ao lançar-se pré-candidato a deputado estadual, a movimentação política parece menos um projeto de representação e mais uma engrenagem eleitoral para fortalecer a candidatura do deputado federal Sargento Fahur, de Londrina. Uma estratégia legítima dentro da política partidária, claro. Mas que levanta uma pergunta inevitável: Onde entra Foz do Iguaçu nessa equação?
Porque, na prática, o eleitor pode acabar funcionando como cabo eleitoral involuntário de outra cidade. Cabo Cassol, seria ele o representante de Foz… Desde que não seja para representar Foz do Iguaçu.
Vereador Bosco Foz
Ao que tudo indica, o Vereador Bosco Foz é pré-candidato a Deputado Federal pelo PL com o único intuito que é de fazer dobradinha com o Deputado Estadual Ricardo Arruda, do PSD que tentará sua reeleição junto a Assembleia Legislativa do Paraná. Seria mais um paraquedista de olho nos votos de Foz do Iguaçu?
Será que o vereador Bosco Foz estaria apresentando um novo produto de exportação da cidade: Votos Iguaçuenses para Deputados de fora?
Vereador Adnan El Sayed
Já o vereador Adnan El Sayed (PSD) entra em outro capítulo dessa novela política. Além de possíveis tensões partidárias, surge a sinalização de apoio ao pré-candidato a deputado estadual Mario Verri, vereador de Maringá pelo PT. Novamente, nada ilegal, nada proibido. Apenas politicamente revelador.
Revelador porque expõe uma contradição clássica: o discurso localista que termina em apoio externo. O compromisso do vereador Adnan El Sayed com Foz do Iguaçu vale o ano inteiro. Ou só até chegar a eleição estadual? É como torcer apaixonadamente pelo time da cidade e, no campeonato seguinte, vestir a camisa do adversário, mas continuar dizendo que é pelo bem da torcida.
Foz do Iguaçu grita por representação, e os próprios líderes tapam os ouvidos
Cidade reclama de abandono na Assembleia e na Câmara Federal, mas parte da classe política prefere apoiar candidatos de fora. Coincidência ou conveniência?
A ironia maior é que Foz do Iguaçu sempre reclama, com razão, da falta de representantes fortes na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. A cidade frequentemente se sente sub-representada, esquecida em decisões estaduais e federais, dependente de lideranças políticas de outras regiões. Mas quando surge a oportunidade de construir essa representatividade local, parte da própria classe política parece preferir terceirizar o protagonismo.
A cidade que pede voz, mas entrega o microfone ao vizinho
Talvez seja a versão política do velho ditado: ninguém acredita no potencial da cidade tanto quanto o discurso eleitoral diz acreditar. No fundo, essa situação revela algo mais profundo do que simples alianças políticas. Mostra como o mandato, que deveria ser instrumento de defesa da comunidade, às vezes se transforma em moeda de negociação dentro de projetos pessoais ou partidários maiores. Não é exatamente uma traição. Mas certamente parece um abandono temporário de prioridades.
Foz diz estar esquecida, mas quando surge a chance de eleger representantes fortes, o apoio atravessa a ponte
E o eleitor, como sempre, assiste a tudo tentando entender em que momento o voto dado para fortalecer Foz passou a servir para fortalecer outras cidades.
A política tem dessas ironias silenciosas. Em ano eleitoral, todos são de Foz do Iguaçu. Entre eleições, Foz do Iguaçu vira apenas um ponto estratégico no mapa eleitoral do Paraná.
Talvez Ulysses Guimarães não estivesse pensando nisso quando falou sobre traição à pátria. Mas, se estivesse observando a política municipal, talvez acrescentasse uma versão adaptada, pois trair a confiança do eleitor também é uma forma de romper um pacto democrático, ainda que em escala local.
E em Foz do Iguaçu, ao que parece, essa modalidade de "traição" está longe de entrar em extinção política.
Sidnei Pretes
O Vereador Sidnei Prestes do Partido Mobiliza, vem negociando com outros partidos para trocar de legenda na janela eleitoral. Assim ele poderia ser candidato a Deputado Estadual e fazer palanque para um candidato a Deputado Federal de fora da cidade.
Valentina Rocha
A pré-candidatura da vereadora Valentina Rocha à Assembleia soa menos como projeto próprio e mais como estratégia de vitrine. Nos bastidores, o comentário é que a missão seria fortalecer o palanque de Arilson Chiorato rumo à Câmara Federal. Quando a candidatura nasce para servir outra, o eleitor vira figurante no teatro eleitoral.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 430, páginas 4 e 5, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

