FILHA DO GENERAL: Manda mais que secretário na Prefeitura mesmo sem ter cargo oficial
Por Tribuna Foz dia em Notícias
FILHA DO GENERAL
Manda mais que secretário na Prefeitura mesmo sem ter cargo oficial
Na Prefeitura de Foz do Iguaçu, ao que tudo indica, a hierarquia administrativa ganhou um novo organograma. Invisível, informal e extremamente eficiente. Nele, cargos, decretos e nomeações oficiais parecem meros detalhes burocráticos diante de um critério muito mais poderoso: o sobrenome.
Afinal, para que portaria publicada no Diário Oficial quando se pode mandar apenas sentando na cadeira do prefeito?
Vídeo que surgiu e desapareceu
Um vídeo que surgiu. E desapareceu com a mesma rapidez de quem percebe que publicou demais. Mostrou a filha do prefeito, o general Joaquim Silva e Luna, confortavelmente instalada na cadeira principal do gabinete, em clima de reunião administrativa, acompanhada de servidoras municipais.
Não era um café, não era uma visita turística, não era um "oi, pai, passei pra dar um abraço". O cenário, o horário e a postura indicavam expediente normal, daqueles pagos religiosamente pelo contribuinte.
A filha que não é nada na Prefeitura
Até onde se sabe, e aqui mora o detalhe inconveniente, a filha do prefeito não possui cargo oficial na administração municipal. Não é secretária, não é diretora e também não é assessora, não é consultora, não é nada que conste formalmente nos registros públicos. Mesmo assim, as informações que circulam nos bastidores são de que ela mantém mesa de trabalho na prefeitura, participa de agendas oficiais, acompanha o prefeito e estaria presente em reuniões administrativas. Um verdadeiro caso de "cargo espiritual": existe na prática, mas não no papel.
A pergunta que se impõe é simples e incômoda: se não há cargo, o que exatamente está sendo exercido ali? Observação familiar? Estágio não remunerado de poder? Influência afetiva com efeito administrativo? Porque, convenhamos, ninguém senta na cadeira do prefeito em horário de expediente apenas para testar a ergonomia do móvel.
Vínculo ultrapassa a porta do gabinete e entra na engrenagem da administração pública
O problema não é a presença da filha como filha. Prefeitos são pais, mães, filhos, seres humanos. O problema começa quando o vínculo familiar ultrapassa a porta do gabinete e entra na engrenagem da administração pública. A partir desse momento, não é mais uma questão privada, mas institucional. E instituição pública não funciona à base de laços sanguíneos, mas de legalidade, transparência e responsabilidade.
Quando alguém sem cargo participa de reuniões administrativas, surge o risco evidente de influência indevida, favorecimento e, no mínimo, confusão de papéis. Quem decide? Quem orienta? Quem manda? Quem responde? Se der certo, o mérito é de quem? Se der errado, a culpa cai sobre qual CPF? O da servidora concursada que obedeceu? Do secretário que "acatou"? Ou do fantasma administrativo que não assina nada?
O silêncio da prefeitura não ajuda. Pelo contrário, amplia o constrangimento. Transparência resolveria o problema em minutos: ou se explica oficialmente qual é o papel exercido, ou se afirma que não há qualquer atuação administrativa. Simples assim. Apagar vídeo não apaga fatos. Apagar story não apaga dúvidas.
Nepotismo que não sai no Diário Oficial, mas circula livremente pelos corredores do poder
No Brasil, nepotismo não se limita à nomeação direta. Existe também o nepotismo indireto, disfarçado, aquele que não sai no Diário Oficial, mas circula livremente pelos corredores do poder. E é justamente esse tipo de prática que corrói a confiança da população, porque passa a mensagem de que regras valem para uns, enquanto outros governam por proximidade familiar.
O episódio deixa uma sensação incômoda: a de que, em Foz do Iguaçu, pode haver secretário com cargo, salário e responsabilidade formal… e alguém sem cargo algum mandando mais que ele. Se isso for verdade, não é só um problema político. É um problema institucional grave. E quanto mais silêncio, maior o barulho.
Na Prefeitura de Foz do Iguaçu, o nepotismo parece ter ganhado uma versão moderna: sem nomeação, sem portaria e sem Diário Oficial. A filha do general-prefeito não tem cargo, mas manda como se tivesse. Participa de reuniões, ocupa espaço no gabinete e exerce influência digna de secretária, sem responder legalmente por nada. É o poder hereditário em versão informal, onde o sobrenome vale mais que a lei e a transparência fica do lado de fora do gabinete.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 427, Página 3, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

