Enciumado com título destinado a concorrente, Guto Silva força a barra para garantir honraria
Por Tribuna Foz dia em Notícias
VAPT-VUPT LEGISLATIVO
Enciumado com título destinado a concorrente, Guto Silva força a barra para garantir honraria
Até governador entrou na parada para pressionar vereadores. Fiscalizar o prefeito é difícil; homenagear pré-candidato é Vapt-vupt. Tipo assim, para fiscalizar falta tempo; para título honorário sobra
Em Foz do Iguaçu, a política municipal parece ter descoberto um novo esporte olímpico: a corrida dos títulos honorários. Não é maratona, nem prova de resistência.
"Recorde olímpico de homenagens"
É modalidade de velocidade pura, 100 metros rasos no estilo "Vapt-vupt". Tudo rápido, tudo urgente, tudo aprovado antes mesmo que o cidadão comum consiga entender exatamente o que está acontecendo.
A lógica parece simples: fiscalizar o prefeito é complicado, exige trabalho, análise de documentos, questionamentos e, pior ainda, coragem política.
Já homenagear alguém… ah, isso é muito mais fácil. Basta um projeto, alguns elogios ensaiados, meia dúzia de discursos emocionados e pronto. Mais um cidadão honorário nasce na cidade.
O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Alexandre Curi, recebeu o título de Cidadão Honorário de Foz do Iguaçu no dia 27 de fevereiro de 2026. A homenagem foi proposta pela vereadora Anice Gazzaoui ainda no ano de 2025, sem pressa, conforme o rito, como sempre aconteceu justificando a honraria e destacando a atuação do deputado em defesa dos municípios paranaenses e sua interlocução com lideranças locais.
Até aí, tudo dentro do roteiro tradicional da política brasileira: discursos elogiosos, aplausos protocolares e fotografias oficiais que depois vão parar nas redes sociais. Nada de anormal. A máquina da política funcionando como sempre funcionou.
"Se candidate, ganhe um título"
Mas bastou o título ser entregue para que surgisse um fenômeno político conhecido popularmente como "inveja parlamentar aguda". Em linguagem popular, alguns chamam de "fura-olho", outros preferem "zoio de banha". No fundo, é o velho sentimento humano que também frequenta gabinetes: a inveja.
Segundo fontes, Guto Silva por sua vez reclamou para o governado Ratinho Junior "se ele pode porque eu não posso". E foi nesse momento que entrou em cena o governador do Paraná, Ratinho Junior. Segundo os bastidores políticos, o governador teria questionado por que Alexandre Curi recebeu a honraria e seu aliado político, Guto Silva, não.
Pronto. Bastou essa pergunta para que o sistema político local ativasse o chamado, modo Vapt-Vupt.
"Diploma político instantâneo"
Coube ao vereador Evandro Ferreira assumir o papel de executor da ideia. Em uma demonstração impressionante de eficiência administrativa. Eficiência essa raramente vista quando o assunto é fiscalização do Executivo. O vereador rapidamente protocolou o Projeto de Decreto Legislativo nº 02/2026, concedendo o título de Cidadão Honorário a Guto Silva, que por coincidência também é pré-candidato ao governo do Paraná.
Coincidência, claro. Política nunca tem coincidência estratégica. É sempre pura admiração institucional.
Mas todo roteiro político precisa de um pequeno obstáculo para dar emoção à história. E o obstáculo apareceu na forma da Comissão de Legislação, Justiça e Redação da Câmara.
Ali poderia haver análise, debate, reflexão… ou pelo menos alguns dias de espera.
"Honraria de temporada eleitoral"
Quando o modo VaptVupt está ativado. Não ha o que segure.
Segundo relatos de bastidores, o vereador Evandro Ferreira teria recorrido à ferramenta mais moderna da política contemporânea: o telefone direto com o governador. Do outro lado da linha, Ratinho Junior teria deixado claro que a homenagem deveria avançar rapidamente.
Do outro lado da mesa estava o presidente da comissão, o vereador Beni Rodrigues. E, diante da pressão política, o parecer favorável surgiu quase instantaneamente, mesmo sem a presença da vereadora Yasmin Hachem, que se encontrava em viagem. Afinal quando um vereador se vende para o prefeito, porque não se vender para o governador?
Resultado do processo legislativo?
Dia 2 de março: projeto apresentado.
Dia 5 de março: projeto lido, pautado e aprovado.
Tudo em ritmo Vapt-Vupt. Mais rápido que fila de banco em feriado.
VAPT-VUPT LEGISLATIVO
O que realmente Guto Silva fez por Foz do Iguaçu?
Homenagens em tempo recorde, problemas em tempo indefinido; Em Foz do Iguaçu, cidadão honorário nasce mais rápido que projeto social
A pergunta inevitável é simples: o que exatamente Guto Silva fez por Foz do Iguaçu que justificasse tamanha pressa para receber a honraria?
Será que ele saberia dizer, de cabeça, a data de aniversário da cidade? Ou quantos anos o município tem? Porque, sejamos sinceros, ocupar cargo de secretário de Estado e liberar investimentos para municípios não é favor pessoal. É parte do trabalho pelo qual um agente público recebe salário.
Se esse virou o novo critério para título honorário, talvez seja melhor começar a preparar uma grande cerimônia coletiva para metade da máquina pública estadual. Afinal, se a ordem vier de cima, o título sai.
E rápido.
Muito rápido.
"Para fiscalizar o Executivo falta tempo; para título honorário sobra"
O mais curioso é que essa agilidade impressionante desaparece completamente quando o assunto é fiscalização do Executivo municipal. Aí o modo Vapt-Vupt entra em pane.
Pedidos de informação demoram meses.
Requerimentos desaparecem nas gavetas.
Discussões são adiadas.
Comissões "analisam" in definidamente.
Mas aprovar homenagem política? Ah, isso funciona como relógio suíço.
"Fiscalizar depois, homenagear primeiro"
Imagine se a mesma eficiência fosse aplicada a problemas reais da cidade. Um vereador visita uma unidade de saúde, encontra problemas, protocola um pedido de providências e no dia seguinte o assunto é debatido e resolvido.
Seria quase uma revolução administrativa.
Mas curiosamente esse tipo de velocidade parece tecnicamente impossível.
Enquanto isso, outra pergunta paira sobre os bastidores políticos da cidade. Onde estava o vereador Evandro Ferreira quando surgiram denúncias envolvendo o prefeito Joaquim Silva e Luna e a suposta agressão contra uma servidora municipal?
Naquele momento, não houve projeto Vapt-Vupt.
Não houve pressa.
Não houve discurso inflamado.
Houve silêncio. Um silêncio curioso para alguém eleito com forte apoio de servidores públicos. Um silêncio que levanta perguntas incômodas sobre representação política e independência parlamentar.
"Pressa para homenagear, calma eterna para fiscalizar"
No fim das contas, resta uma dúvida que ecoa entre eleitores e observadores da política local:
O mandato parlamentar serve para fiscalizar o poder ou apenas para organizar cerimônias de homenagem estrategicamente posicionadas em ano eleitoral?
"A república dos títulos honorários"
Porque, se continuar nesse ritmo, Foz do Iguaçu corre o risco de entrar para o Guinness Book como a cidade com mais cidadãos honorários por metro quadrado.
E tudo, claro, aprovado em tempo recorde.
Vapt-Vupt.
Uma coisa é certa: na Câmara Municipal, títulos honorários parecem viajar em pista expressa, enquanto os problemas da população continuam presos no congestionamento da burocracia política.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 431, páginas 4 e 5, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

