GENERAL INCOPETENTE? Prefeito manda fechar plantão noturno odontológico da UPA
Por Tribuna Foz dia em Notícias
GENERAL INCOPETENTE?
Prefeito manda fechar plantão noturno odontológico da UPA
A dor que não cabe no horário noturno; Dor de dente, descaso e uma cidade sem analgésico
Quem já sentiu uma dor de dente forte sabe que ela não pede licença, não consulta agenda e muito menos espera o próximo horário disponível do posto de saúde. Ela aparece de madrugada, no fim de semana, durante um feriado e, quando resolve apertar, parece ter escolhido justamente o pior momento possível.
É por isso que existe atendimento de urgência.
Mas, em Foz do Iguaçu, parece que até a dor agora terá de respeitar expediente administrativo.
Na última sexta-feira, 14 de agosto de 2026, foi registrado o último atendimento odontológico noturno na UPA João Samek. A partir de agora, quem trabalha em horário comercial e ao sair do trabalho com dor de dente não terá mais atendimento no UPA João Samek, como tinha desde a sua inauguração. E quem estiver com dor de dente poderá descobrir que, para a Prefeitura, o problema aparentemente pode esperar.
E quando a dor não pode esperar?
Bom... aí o cidadão que se vire.
A decisão, atribuída à administração do prefeito Joaquim Silva e Luna, representa mais uma mudança na estrutura de atendimento da saúde municipal e levanta uma pergunta bastante simples: como pode uma administração anunciar que os atendimentos de urgência e emergência continuam disponíveis 24 horas enquanto elimina justamente um serviço de urgência odontológica que funcionava dentro de uma UPA?
É aquela velha história: a placa continua na parede, o prédio continua de pé, o discurso continua bonito, mas o serviço desaparece.
"Não é fechamento, é readequação” e a dor que explique
A Prefeitura anunciou que, a partir de segunda-feira, 17 de agosto, as UBS da Vila C Velha, Vila Carimã, Três Lagoas e Três Bandeiras passarão a funcionar das 7h às 13h.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a mudança seria uma readequação dos horários e não afetaria os atendimentos de urgência e emergência, que permaneceriam disponíveis 24 horas nas UPAs.
Bonito no papel.
Só esqueceram de combinar com o dente.
Porque uma coisa é reduzir o horário de funcionamento programado de uma Unidade Básica de Saúde. Outra, completamente diferente, é retirar um atendimento odontológico de urgência noturna que recebia justamente pessoas que chegavam à UPA sofrendo com dor.
Não era consulta eletiva. Não era atendimento previamente agendado. Era urgência.
O paciente não chegava dizendo:
— “Bom dia, gostaria de agendar uma dor de dente para terça-feira às 10h30.”
Não funciona assim.
A pessoa chega porque está com dor.
E dor de dente, quando é forte, não aceita burocracia.
O cidadão não agenda a dor
Talvez esse seja o ponto que alguém no gabinete do prefeito tenha esquecido.
O atendimento odontológico da UPA não funcionava como uma consulta convencional marcada previamente em uma UBS. O cidadão chegava em situação de sofrimento e procurava atendimento.
É exatamente essa diferença que torna questionável o argumento de que bastaria procurar uma unidade básica durante o horário de funcionamento.
E se a dor começar às 19 horas?
E se começar às 23 horas?
E se for sábado?
E se for domingo?
E se for feriado?
A boca do cidadão vai receber um memorando informando que a Prefeitura encerrou o plantão noturno da unidade?
Talvez seja necessário criar uma nova modalidade de atendimento:
“Emergência odontológica com hora marcada.”
A pessoa liga:
— “Boa noite, estou com uma dor insuportável.”
— “Senhor, infelizmente o plantão foi fechado.”
— “Mas é uma emergência!”
— “Compreendemos. A dor poderá ser sentida novamente amanhã, dentro do horário administrativo.”
É quase uma piada.
Só que, para quem está sofrendo, não tem graça nenhuma.
A UPA virou lugar de esperar a dor passar?
A UPA foi criada para atender situações de urgência e emergência. E dor odontológica intensa pode representar um quadro que exige avaliação, principalmente quando associada a infecção, edema, febre ou outras complicações.
Retirar o atendimento odontológico noturno não faz a necessidade desaparecer.
Ela apenas muda de endereço.
Ou pior: deixa o cidadão sem saber para onde ir.
O problema é que a administração pública parece ter uma mania curiosa: quando não consegue resolver uma demanda, às vezes parece acreditar que a melhor solução é eliminar o lugar onde a demanda aparece.
Se não tem atendimento, não tem fila.
Se não tem fila, não tem problema.
Se não tem problema, quem sabe até apareça uma estatística bonita no relatório.
Só faltou avisar isso ao paciente.
GENERAL IMCOPETENTE?
O “especialista em asfalto” agora entende de odontologia?
Durante a campanha eleitoral, Silva e Luna teria se apresentado como especialista em asfalto
A cidade esperava, então, um prefeito capaz de enfrentar os problemas de infraestrutura. Mas, depois de assumir o comando da Prefeitura, as reclamações sobre buracos nas ruas continuaram.
Agora surge uma nova especialidade administrativa: odontologia por decreto.
Se antes o desafio era tapar os buracos das ruas, agora parece que o objetivo é administrar os buracos dos dentes.
A diferença é que o buraco da rua pode ser desviado.
O buraco no dente não.
E se o buraco da rua quebra a suspensão do carro, o buraco no dente pode arrancar do cidadão uma noite inteira de sono.
“Você está vendo um buraco...”
Há uma frase atribuída ao prefeito que ganhou repercussão nas críticas à sua gestão: “Você está vendo um buraco, você só cai se for um estúpido.”
Pois bem.
Aplicando a mesma lógica ao setor odontológico, fica uma dúvida inevitável: quem chega à UPA com dor de dente também será considerado estúpido por não ter procurado um dentista antes?
Será que o cidadão precisa prever exatamente quando seu dente vai doer?
Será que deveria manter um dentista de plantão em casa?
Talvez a Prefeitura possa distribuir, junto com o carnê do IPTU, um calendário preventivo:
“Datas prováveis para sua dor de dente.”
Ou então um aplicativo:
“Foz Sorrindo” — agora disponível para Android e iOS.
O cidadão informa:
“Meu dente está doendo.”
O aplicativo responde:
“Obrigado pela informação. O atendimento odontológico da UPA noturno foi encerrado. Tente novamente em horário comercial.”
Seria engraçado se não fosse trágico.
A saúde não pode funcionar como loja de departamento
Saúde pública não é comércio. Não dá para simplesmente fechar uma porta e esperar que o problema desapareça.
Quem procura atendimento médico ou odontológico de urgência geralmente não está fazendo turismo dentro da unidade de saúde.
Está ali porque precisa.
O cidadão que chega com uma dor intensa não quer favor. Não quer privilégio. Não quer tratamento VIP.
Quer atendimento.
E é justamente aí que a administração precisa explicar melhor a decisão.
Se o problema é falta de profissionais, que se diga.
Se é falta de recursos, que se mostrem os números.
Se é reorganização da rede, que se apresente o estudo técnico.
Se existe uma alternativa realmente eficaz, que ela seja apresentada à população.
O que não parece razoável é anunciar uma “readequação” e, ao mesmo tempo, transmitir a sensação de que o serviço simplesmente desapareceu.
O problema não desaparece: muda de lugar
É importante deixar claro: fechar ou reduzir um serviço não significa eliminar a necessidade.
A dor continua.
A infecção continua.
O paciente continua procurando atendimento.
A diferença é que agora ele poderá precisar percorrer mais quilômetros, procurar outra unidade ou enfrentar uma rede que talvez já esteja sobrecarregada.
E aí surge outro efeito dominó.
O que antes era resolvido com atendimento odontológico de urgência pode acabar chegando a uma unidade médica, ao pronto-socorro ou até a um hospital.
A economia de um lado pode produzir custo maior de outro.
É aquela velha matemática administrativa: corta aqui e descobre a conta ali.
A cidade precisa de explicações, não de slogans
Foz do Iguaçu não precisa apenas de discursos sobre gestão eficiente. Precisa de gestão eficiente.
E gestão eficiente, especialmente na saúde, significa colocar o paciente no centro da decisão.
Não basta dizer que “o atendimento de urgência permanece 24 horas”. É preciso explicar qual urgência, onde, com quais profissionais, em quais condições e para qual tipo de paciente.
Porque, para quem está com uma dor de dente desesperadora às 20 horas, uma frase genérica sobre atendimento 24 horas não resolve absolutamente nada.
O cidadão precisa saber:
Onde eu vou?
Essa é a pergunta.
E a Prefeitura precisa responder.
General contra o inimigo invisível
O prefeito é General. Conhece, portanto, a lógica de planejamento, estratégia, logística e cadeia de comando. Pois então talvez seja hora de aplicar esses conceitos à saúde.
Porque o inimigo, desta vez, não é um exército. É uma dor de dente. E ela tem uma característica particularmente inconveniente: não respeita ordem de serviço.
Não adianta mandar a dor esperar. Não adianta determinar que o atendimento seja interrompido. Não adianta mudar o horário. A dor não lê decreto. A dor não conhece organograma. A dor não sabe quem é o prefeito. E muito menos vota.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 442, páginas 6 e 7, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

