ISSO TÁ CERTO? "CENTRO POP: acolhe de dia, despeja à noite"
Por Tribuna Foz dia em Notícias
ISSO TÁ CERTO?
"CENTRO POP: acolhe de dia, despeja à noite"
Prefeitura teria descoberto o "semi-acolhimento" social"; Um acolhimento até as 17h, depois cada um por si
Há políticas públicas que parecem feitas para resolver problema. E há aquelas que parecem feitas apenas para escondê-los durante o horário comercial. Em Foz do Iguaçu, a impressão que fica é que a assistência social descobriu a solução mais inovadora da gestão moderna: a "vulnerabilidade" em expediente administrativo.
"Hotel Prefeitura: check-in de dia, despejo à noite"
Funciona mais ou menos assim: durante o dia, a Prefeitura acolhe, alimenta e organiza as pessoas em situação de rua no CENTRO POP. Tudo dentro do script institucional, com café, almoço e atendimento social. Até aí, perfeito. Digno de relatório bonito e foto para rede social. O detalhe inconveniente começa quando o relógio se aproxima da noite e a política pública aparentemente encerra o turno junto com os servidores. A partir daí, a vulnerabilidade volta para a rua, porque o problema social, ao que parece, não tem autorização para pernoitar no prédio público.
"Morador de rua ganha café, almoço e… a calçada"
É quase uma política de "semi-acolhimento": acolhe quando o sol está alto e devolve quando a lua aparece. Uma espécie de "drive-thru" da assistência social, onde o cidadão vulnerável recebe atendimento rápido e depois é convidado a se retirar. Afinal, ninguém quer extrapolar o horário de funcionamento da burocracia.
Nos finais de semana e feriados, a criatividade administrativa atinge seu auge. O CENTRO POP permanece aberto de dia nos sábados e domingos, mas no período noturno dezenas de pessoas acabam permanecendo nas proximidades, especialmente ao lado da Unidade Básica de Saúde do Jardim São Paulo, aguardando a reabertura do serviço. O resultado previsível, mas aparentemente ignorado. É a formação de um acampamento improvisado ao redor de um prédio público de saúde.
"Cenas de abandono ao lado de posto de saúde chocam moradores"
Nada diz "planejamento social eficiente" como transformar a entrada de um posto de saúde em sala de espera ao ar livre para o próximo dia.
Na manhã de segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, a cena registrada no local escancarou o que relatórios técnicos dificilmente mostram: pessoas dormindo no chão, lixo acumulado, odor forte e sensação de abandono. Um retrato que não cabe em apresentação de PowerPoint, mas que existe no mundo real.
Enquanto isso, moradores do entorno convivem com a insegurança, a sujeira e o medo. Relatos de crimes nas imediações da unidade de saúde já teriam ocorrido, e não há sequer a presença permanente de Guarda Municipal. Ou seja, a política pública consegue desagradar simultaneamente quem precisa de assistência e quem vive próximo ao serviço. Um feito administrativo raro.
A pergunta inevitável é simples: isso é acolhimento ou apenas organização temporária do problema?
"Prefeitura acolhe de dia e abandona à noite?"
Porque retirar alguém da rua durante o dia para devolvê-lo à rua à noite não é exatamente uma solução, é apenas uma pausa no problema. É como varrer a sujeira para debaixo do tapete, com a diferença de que, neste caso, o "tapete" fecha às 17 horas.
Política pública de assistência social não deveria funcionar como repartição bancária, com horário limitado e porta fechada quando a demanda mais precisa. Vulnerabilidade não bate ponto, não tira folga e muito menos respeita calendário de feriados.
A Prefeitura parece cuidar dos vulneráveis enquanto o expediente permite e depois devolvê-los ao cenário de sempre. Um ciclo diário que não resolve a situação de ninguém, apenas muda o endereço do problema por algumas horas.
Se a intenção é acolher, é preciso acolher de verdade. Caso contrário, o CENTRO POP corre o risco de se tornar apenas um "centro de passagem entre a rua da manhã e a rua da noite". Uma solução temporária para um problema permanente.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 429, página 16, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

