O cerco se fecha em duas frentes: Caso dos livros recolhidos é alvo de ação civil pública na justiça e de CPI na Câmara Municipal
Por Tribuna Foz dia em Notícias
O PANORAMA DA CRISE
O cerco se fecha em duas frentes: Caso dos livros recolhidos é alvo de ação civil pública na justiça e de CPI na Câmara Municipal
Pressão sobre a gestão municipal atinge nível crítico. Enquanto juiz exige provas técnicas e ameaça punição por má-fé, vereadores aprofundam investigações sobre os motivos reais da censura prévia nas escolas
Enrique Alliana - Jornalista
Em Foz do Iguaçu, a gestão municipal resolveu inovar no calendário escolar: trocou o conteúdo de inglês por aulas práticas de “crise institucional avançada”. O resultado? Um verdadeiro manual de como transformar um problema administrativo em um espetáculo jurídico-político digno de série de streaming. O título do episódio é conhecido: “tempestade perfeita”.
A decisão de recolher os livros de inglês de milhares de alunos da rede municipal, tomada de forma súbita pela Secretaria Municipal de Educação de Foz do Iguaçu, pretendia talvez ser vendida como zelo pedagógico. Mas acabou soando como censura prévia com verniz burocrático. O que era para ser um simples ato administrativo virou um case de como criar um incêndio e depois se surpreender com a fumaça.
Página por página, linha por linha: Justiça manda Prefeitura fazer a lição de casa
Agora, o cerco se fecha em duas frentes. De um lado, o Poder Judiciário; do outro, a Câmara de Vereadores. E não é metáfora dramática: é protocolo oficial. Na Justiça, a Ação Civil Pública movida pelo SINPREFI já garantiu a devolução dos livros por meio de liminar. A fase atual é probatória e exige aquilo que parece ter faltado no início: provas. Página por página. Linha por linha. Expressão por expressão. Um verdadeiro “caça-palavras” jurídico.
A Prefeitura, que talvez imaginasse resolver tudo com notas oficiais e discursos inflamados, agora enfrenta a possibilidade nada elegante de ser condenada por “litigância de má-fé”. Segundo o sindicato, teriam sido apresentadas jurisprudências inverídicas para sustentar o recolhimento. Se confirmado, não seria apenas um erro técnico, seria uma aula prática de como não argumentar perante um juiz.
Inglês recolhido, crise fluente: Prefeitura aprende “Judicialês” na marra
Enquanto isso, no Legislativo, a crise ganhou palco próprio. A presidente do SINPREFI, Viviane Dotto, avisou publicamente: “Nós sabemos que a questão dos livros didáticos está tendo desdobramentos. Existe uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) acontecendo com relação a esta mesma pauta”. Traduzindo do sindicalês para o português claro: o assunto não será varrido para debaixo do tapete.
Crise bilíngue: No Fórum se fala prova, na Câmara se fala CPI
A CPI investiga os bastidores do recolhimento. Quer saber se a decisão foi fruto de convicções ideológicas, de pânico moral, de falhas administrativas ou de algo ainda mais constrangedor. O fato é que, entre depoimentos, oitivas e requisição de documentos, a narrativa oficial vai sendo testada em praça pública.
Prefeitura tenta cortar o texto e acaba cortada pelo contexto
E aí reside o verdadeiro drama: quando Justiça e Câmara fazem perguntas ao mesmo tempo, fica difícil sustentar versões vagas. A convergência entre a pressão judicial por provas técnicas e a investigação política cria um ambiente em que a criatividade retórica já não resolve. É preciso documento, fundamento, coerência.
O que começou como uma medida “protetiva” virou um teste de resistência institucional. E a exigência por transparência, como bem lembrou o sindicato, deixou de ser apenas pauta corporativa. “O esclarecimento de toda a situação que aconteceu é muito importante também para os pais, para a comunidade e para os professores”. Em outras palavras: a sociedade quer saber quem decidiu, por quê decidiu e com base em quê decidiu.
No fim, talvez a maior lição dessa novela seja simples: antes de recolher livros, convém ler as consequências. Porque, em Foz, a gramática da crise está sendo escrita em tempo real e, ao que tudo indica, com revisão implacável.
