Quando o denuncismo insiste em ressuscitar o que o Ministério Público já enterrou
Por Tribuna Foz dia em Notícias
CEMITÉRIO NA MIRA
Quando o denuncismo insiste em ressuscitar o que o Ministério Público já enterrou
Treze anos de denúncias, duas investigações e o mesmo resultado; MP já decidiu, mas a polêmica se recusa a ser enterrada
Existe um velho ditado que diz que uma mentira repetida mil vezes tenta parecer verdade. No Jardim São Paulo, porém, parece que algumas denúncias resolveram desafiar até mesmo a lógica. Há mais de uma década, um pequeno grupo de moradores insiste em impedir a ampliação do Cemitério Municipal com uma coleção de alegações que, até agora, não conseguiram sobreviver ao confronto com documentos oficiais.
Nos últimos meses, o Tribuna Popular voltou a receber uma enxurrada de reclamações. Segundo os denunciantes, a ampliação do cemitério provocaria desde a desvalorização dos imóveis até uma suposta explosão de animais peçonhentos e pernilongos. Houve até quem afirmasse que o jornal estaria "acobertando crimes" apenas por não publicar acusações sem qualquer comprovação.
Curiosamente, quando chegou a hora de apresentar provas, sobraram discursos e faltaram documentos.
Quando a papelada fala mais alto que o megafone
Enquanto as acusações eram sustentadas apenas por relatos verbais, a outra parte apresentou um extenso conjunto de documentos envolvendo diretamente o Ministério Público do Paraná.
E a história mostra que essa novela está longe de ser inédita.
Em 2011 começaram as primeiras denúncias alegando irregularidades ambientais na ampliação do cemitério. O Ministério Público instaurou procedimentos, requisitou informações ao então Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e analisou toda a documentação existente.
O resultado apareceu em 2012: arquivamento.
Não satisfeitos, os denunciantes voltaram à carga anos depois.
Quando os documentos dizem uma coisa e o denuncismo insiste em outra
Em 2021, um novo Inquérito Civil Público foi instaurado para verificar exatamente as mesmas suspeitas relacionadas ao licenciamento ambiental e às autorizações para ampliação.
Mais uma vez houve diligências, análise técnica e investigação. Mais uma vez veio a mesma conclusão.
Em janeiro de 2023, o Ministério Público arquivou novamente o procedimento por não encontrar elementos que justificassem qualquer continuidade das investigações.
Quando um fato é analisado duas vezes, por promotores diferentes, em épocas distintas, e ambos chegam exatamente à mesma conclusão, talvez seja hora de aceitar que insistência não transforma hipótese em realidade.
Os pernilongos preferem o mato alto
Entre todas as alegações, talvez a mais curiosa seja a de que a ampliação do cemitério aumentaria pernilongos e animais peçonhentos.
A teoria, porém, esbarra numa situação bastante visível.
Enquanto a área interna do cemitério recebe limpeza e manutenção frequentes, em diversos trechos externos próximos às residências o mato alto e a falta de conservação oferecem condições muito mais favoráveis para a proliferação desses animais.
É difícil culpar um terreno limpo quando o problema pode estar exatamente do outro lado do muro.
Quando o denuncismo vira esporte
Fiscalizar o poder público é um direito e até uma obrigação da sociedade. Denunciar irregularidades também.
Mas existe uma enorme diferença entre fiscalização responsável e denuncismo compulsivo.
Acusações sem provas, repetidas durante mais de uma década, investigadas e arquivadas pelo Ministério Público em diferentes momentos, acabam produzindo um efeito contrário: desgastam quem denuncia e desviam a atenção de problemas reais que merecem solução.
Com tudo isso, parece que alguns preferem manter viva uma polêmica que já recebeu sua certidão oficial de encerramento.
Enquanto isso, a cidade continua enfrentando um problema concreto: a necessidade de ampliar sua capacidade de sepultamentos.
Afinal, por mais que alguns tentem ressuscitar denúncias já arquivadas, a realidade permanece implacável. Há processos encerrados, documentos públicos e decisões oficiais mostrando que determinadas histórias simplesmente já foram enterradas.
E, convenhamos, insistir em desenterrá-las pela terceira vez talvez seja o único fantasma que realmente continua rondando o cemitério.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 439, página 16, de autoria do Jornalista Enrique Alliana
