HOSPITAL MUNICIPAL: O último refúgio de uma rede que aprendeu a transferir responsabilidades
Por Tribuna Foz dia em Notícias
HOSPITAL MUNICIPAL
O último refúgio de uma rede que aprendeu a transferir responsabilidades
Existe uma curiosa lógica na saúde pública de Foz do Iguaçu. Quando uma consulta é realizada, quando um exame é agendado ou quando algum atendimento especializado acontece dentro da normalidade, os resultados são comemorados, divulgados e transformados em peças de marketing institucional.
"Hospital Municipal: O lixão das incompetências oficiais"
Mas quando a situação se complica, quando o paciente precisa de internação, quando surge uma emergência grave ou quando a vida passa a depender de uma estrutura hospitalar robusta, todos os caminhos levam para o mesmo lugar: o Hospital Municipal.
O Hospital Municipal transformou-se, ao longo dos anos, no verdadeiro para-raios de todas as deficiências da rede. É para lá que seguem os pacientes regulados, os casos mais graves, as transferências de outras unidades, as complicações médicas e as situações que exigem profissionais especializados, equipamentos de alta complexidade e capacidade de resposta imediata.
Em outras palavras, quando a saúde pública entra na fase mais delicada, é o Hospital Municipal que assume a responsabilidade. O problema é que a responsabilidade cresce em velocidade muito superior aos investimentos.
A impressão que fica é que a rede inteira encontrou uma forma confortável de funcionar: distribuir atendimentos, encaminhar demandas e, diante das dificuldades, direcionar tudo para o hospital. O Municipal tornou-se o destino final de problemas que começam em vários pontos do sistema, mas que acabam concentrados em um único lugar.
Naturalmente, a conta chega. E ela chega diariamente na forma de corredores lotados, profissionais sobrecarregados, leitos ocupados além da capacidade e equipes que precisam fazer verdadeiros malabarismos para manter o atendimento funcionando.
"Terceirizar é fácil. Difícil é internar o paciente"
Enquanto milhões de reais circulam em contratos, terceirizações, consultorias e estruturas paralelas, a principal retaguarda da saúde pública continua convivendo com a falta de profissionais, carência de investimentos estruturais e uma demanda que não para de crescer.
É como se alguém decidisse construir uma cidade inteira e esquecesse de reforçar as fundações. O mais curioso é observar como a gestão pública frequentemente tenta enfrentar esse problema. Em vez de atacar as causas, prefere-se investir na aparência.
Pinturas novas surgem nas paredes. Fachadas recebem melhorias estéticas. Vídeos institucionais são produzidos. Publicações otimistas ocupam as redes sociais. Discursos celebram avanços administrativos.
Tudo muito bonito para quem observa de fora. Mas quem trabalha dentro do hospital sabe que tinta não reduz fila de espera. Campanhas publicitárias não contratam enfermeiros. Vídeos promocionais não ampliam equipes.
Postagens institucionais não criam leitos. A realidade permanece intacta atrás da maquiagem. Os corredores continuam cheios. As escalas continuam apertadas. Os trabalhadores continuam absorvendo uma pressão cada vez maior. E os pacientes continuam aguardando que o sistema ofereça a assistência que lhes foi prometida.
Outro sintoma preocupante dessa realidade aparece no crescimento das ações trabalhistas e dos conflitos relacionados às condições de trabalho.
São processos que custam recursos públicos, desgastam profissionais e expõem falhas que poderiam ser evitadas com planejamento adequado. Em muitos casos, o que chega ao Judiciário não é apenas uma disputa trabalhista, mas o reflexo de uma gestão incapaz de resolver problemas básicos de organização, valorização profissional e diálogo interno.
O mais impressionante é que os gestores passam. Mudam os discursos. Mudam os cargos. Mudam os responsáveis pelas entrevistas e pelas fotografias oficiais. Mas os problemas permanecem.
A superlotação permanece. A falta de pessoal permanece. As dificuldades estruturais permanecem. E raramente alguém é responsabilizado pelos erros que ajudaram a construir esse cenário.
Enquanto isso, quem permanece enfrentando as consequências são os trabalhadores da linha de frente e os pacientes que dependem do sistema público de saúde. O Hospital Municipal não precisa de slogans. Não precisa de campanhas de marketing. Não precisa de narrativas cuidadosamente produzidas para transmitir uma sensação de normalidade.
Precisa de prioridade. Precisa de planejamento de longo prazo. Precisa de investimentos proporcionais à responsabilidade que carrega. Precisa de profissionais suficientes para atender uma demanda cada vez maior.
"O SUS agradece. O Hospital Municipal sofre"
E, acima de tudo, precisa ser tratado como aquilo que realmente representa para Foz do Iguaçu e toda a região: o último refúgio de uma rede que, diante das dificuldades, aprendeu a transferir responsabilidades.
Porque quando tudo falha, quando a situação se agrava e quando a urgência bate à porta, é para o Hospital Municipal que todos correm.
A pergunta que continua sem resposta é simples: Se todos olham para o Hospital Municipal nos momentos de crise, quem está olhando pelo Hospital Municipal?
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 436, página 11, de autoria do Jornalista Enrique Alliana
