HOSPITAL MUNICIPAL: Quando a propaganda encontra a realidade dos corredores lotados
Por Tribuna Foz dia em Notícias
HOSPITAL MUNICIPAL
Quando a propaganda encontra a realidade dos corredores lotados
Existe uma diferença enorme entre aquilo que é dito nas coletivas de imprensa e aquilo que acontece dentro de um hospital. Em Foz do Iguaçu, essa diferença parece estar se transformando em um abismo.
Enquanto autoridades insistem em repetir que a situação está sob controle, trabalhadores do Hospital Municipal descrevem um cenário que lembra muito mais uma operação de guerra permanente do que uma estrutura de saúde funcionando normalmente. Afinal, quando uma unidade opera com taxa de ocupação de 125%, estamos falando de qualquer coisa, menos de normalidade.
A matemática é simples. Um hospital foi projetado para funcionar dentro de uma determinada capacidade. Quando essa capacidade é ultrapassada em 25%, não estamos diante de uma pequena oscilação estatística. Estamos diante de um sistema trabalhando acima do limite, sustentado exclusivamente pelo esforço sobrehumano de profissionais que já não sabem mais de onde tirar forças.
Mas talvez a gestão pública tenha descoberto uma nova fórmula administrativa. Uma espécie de milagre burocrático onde três técnicos de enfermagem conseguem atender quarenta pacientes simultaneamente sem que isso gere consequências. Se for esse o caso, seria interessante compartilhar a descoberta com o restante do planeta, pois até hoje nenhum país conseguiu desafiar as leis da física, do tempo e da capacidade humana com tamanho sucesso.
A realidade, porém, é bem menos fantasiosa
São esses profissionais que precisam administrar medicamentos, realizar curativos, aferir sinais vitais, auxiliar na alimentação, atender emergências, realizar higienização, transportar pacientes e ainda prestar informações aos familiares. Tudo isso em um ambiente onde cada minuto conta e onde um simples atraso pode significar sofrimento adicional para quem já está fragilizado pela doença.
O paciente virou estatística
O mais preocupante é que, quando a estrutura entra em colapso, o prejuízo não fica restrito aos trabalhadores.
Quem paga a conta também é o paciente.
Não existe atendimento humanizado quando um profissional precisa correr de um leito para outro sem sequer conseguir concluir adequadamente uma tarefa antes de iniciar a próxima. Não existe acolhimento quando a equipe está exausta. Não existe excelência quando o improviso passa a ser a principal ferramenta de gestão.
O discurso oficial pode até tentar maquiar os números, mas os corredores lotados não mentem. Os leitos ocupados acima da capacidade não mentem. Os profissionais sobrecarregados não mentem.
A única coisa que parece continuar funcionando plenamente é a produção de justificativas.
A cultura do remendo permanente
Outro aspecto preocupante é a dependência crescente das contratações temporárias por Processo Seletivo Simplificado. Na prática, a gestão parece tratar um problema estrutural como se fosse uma emergência passageira.
Mas a falta de profissionais não surgiu ontem. A sobrecarga das equipes não é novidade. O crescimento da demanda também não. Ainda assim, em vez de investir na ampliação definitiva dos quadros funcionais, aposta-se em medidas temporárias para resolver problemas permanentes. É como tentar conter uma enchente utilizando baldes enquanto se ignora o rompimento da barragem.
O resultado é previsível: alta rotatividade, insegurança profissional, perda de experiência acumulada e dificuldade para consolidar equipes estáveis.
Quem cuida também está adoecendo
Existe ainda uma dimensão que raramente aparece nos relatórios oficiais: a saúde mental dos trabalhadores.
Por trás dos jalecos existem seres humanos. Profissionais que convivem diariamente com sofrimento, dor, urgências e mortes. Profissionais que chegam ao final do plantão física e emocionalmente exaustos. Profissionais que carregam a sensação permanente de que poderiam oferecer um atendimento melhor se tivessem as condições mínimas para isso.
Ansiedade, estresse crônico, esgotamento emocional e síndrome de burnout deixaram de ser exceções para se tornarem consequências previsíveis de um ambiente que opera continuamente sob pressão extrema.
E o mais grave é que muitos desses trabalhadores permanecem em silêncio por medo de represálias ou pela simples sensação de que ninguém está disposto a ouvir.
A verdade não cabe em notas oficiais
Nenhuma nota oficial consegue esconder uma ocupação de 125%. Nenhum discurso consegue apagar a realidade enfrentada diariamente por profissionais que precisam fazer o trabalho de duas ou três equipes ao mesmo tempo.
O Hospital Municipal continua funcionando, é verdade. Mas não porque o sistema esteja equilibrado. Continua funcionando graças ao comprometimento de trabalhadores que diariamente compensam com dedicação aquilo que falta em planejamento, investimento e gestão.
A população de Foz do Iguaçu merece transparência. Os pacientes merecem segurança. Os profissionais merecem respeito.
Porque quando um hospital ultrapassa seus limites operacionais, não é apenas a estrutura que entra em risco. É a qualidade do atendimento, a segurança dos pacientes e a saúde de quem dedica a vida a cuidar dos outros.
E ignorar essa realidade não resolve o problema. Apenas adia o momento em que a conta chegará para todos.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 436, página 10, de autoria do Jornalista Enrique Alliana