Secretária recebeu salário da PM enquanto ocupava cargo na Prefeitura
Por Tribuna Foz dia em Notícias
POSSÍVEL FRAUDE?
Secretária recebeu salário da PM enquanto ocupava cargo na Prefeitura
A revelação de que a secretária municipal da Mulher de Foz do Iguaçu, Scheila Fátima de Melo Rosso, recebeu simultaneamente remunerações da Polícia Militar do Paraná e da Prefeitura entre fevereiro e maio de 2026 levanta uma série de questionamentos que não podem ser ignorados pelo poder público.
"Licença acabou, salário não: a matemática curiosa da secretária"
Mais do que uma possível irregularidade administrativa, o episódio envolve recursos públicos, transparência e a responsabilidade de uma agente que, por sua própria condição de policial militar, conhece profundamente as regras que regem a administração pública.
Documentos obtidos pela Trivox - A Voz da Tríplice Fronteira indicam que a licença concedida pela Polícia Militar para que Scheila ocupasse cargo civil teria encerrado em 12 de fevereiro de 2026. Com o término desse afastamento, ela retornaria automaticamente ao quadro ativo da corporação estadual. Apesar disso, permaneceu exercendo normalmente a função de secretária municipal.
"Dois contracheques, uma servidora e muitas perguntas sem resposta"
Os números chamam atenção. Entre fevereiro e maio, a soma das remunerações recebidas junto ao Estado e ao Município alcançou R$ 99.732,19. O Portal da Transparência do Paraná registra ainda o pagamento de R$ 10.356,98 referente ao mês de junho como policial militar da ativa. Paralelamente, o Portal da Transparência da Prefeitura aponta remuneração bruta mensal de R$ 17.293,00 até que o pagamento de junho foi bloqueado.
Segundo informações obtidas durante a apuração, foi justamente a Prefeitura que identificou a inconsistência ao solicitar a Guia da Paraná Previdência. Ao constatar que a secretária constava como servidora estadual ativa, o Município interrompeu o pagamento referente a junho. Um parecer técnico interno teria recomendado a imediata regularização da situação e a comunicação oficial do caso à Polícia Militar.
"A arte de servir a dois cofres públicos ao mesmo tempo"
A sequência dos fatos desperta perguntas inevitáveis. Como uma situação dessa natureza permaneceu por quatro meses sem ser percebida? Houve comunicação formal do retorno à ativa? Os órgãos de controle interno do Estado e do Município acompanharam o encerramento da licença? E, principalmente, quando a própria servidora tomou conhecimento da situação?
"Se era erro, demorou quatro meses para alguém perceber?"
É importante destacar que o simples recebimento de valores em duplicidade não configura automaticamente crime. A legislação e a jurisprudência exigem a comprovação de dolo, ou seja, de que o servidor tinha plena consciência da irregularidade e, mesmo assim, optou deliberadamente por permanecer com recursos que sabia serem indevidos. Caso isso seja comprovado pelas autoridades competentes, podem surgir responsabilizações nas esferas administrativa, civil e criminal.
No caso específico de um policial militar, o rigor esperado é ainda maior. Integrantes das forças de segurança estão submetidos a normas disciplinares próprias e possuem o dever funcional de observar estritamente a legalidade. Eventual desvio de conduta pode resultar em procedimentos administrativos, processos na Justiça Militar e, dependendo das circunstâncias, responsabilização na Justiça comum.
"A servidora que descobriu o dom da remuneração simultânea"
Mas há outro aspecto igualmente grave: o político. Integrantes do primeiro escalão municipal ocupam cargos de absoluta confiança. Quando surge uma suspeita envolvendo o recebimento de dinheiro público, não basta o silêncio. A sociedade espera transparência, explicações objetivas e documentação capaz de esclarecer todos os fatos.
Até o momento, esse esclarecimento não veio. Durante a apuração, os jornalistas Natália Peres e Ed Queiroz tentaram contato com Scheila Fátima de Melo Rosso para que apresentasse sua versão. Segundo a reportagem, ambos foram bloqueados no telefone celular da secretária. Até o fechamento da matéria, nenhuma manifestação foi apresentada.
"Manual da transparência: bloquear jornalista é mais fácil que explicar"
O bloqueio dos jornalistas talvez seja o detalhe mais simbólico de toda a história. Quem exerce função pública não presta contas apenas ao prefeito que o nomeou. Presta contas à população que financia os cofres públicos por meio dos impostos. Quando surgem dúvidas sobre quase R$ 100 mil pagos simultaneamente por dois entes públicos, o dever institucional não é silenciar, mas esclarecer.
Agora, cabe à Prefeitura, à Polícia Militar, aos órgãos de controle e, se for o caso, ao Ministério Público verificar se houve apenas uma falha burocrática ou uma conduta consciente. Se tudo estiver regular, a documentação deverá comprovar isso de forma inequívoca. Se houver irregularidades, a responsabilização deve ocorrer com o mesmo rigor aplicado a qualquer servidor.
A credibilidade da administração pública depende justamente desse princípio: não pode existir tratamento privilegiado quando o assunto é dinheiro do contribuinte. Transparência não é favor. É obrigação.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 438, página 3, de autoria do Jornalista Enrique Alliana


