UM CONTO FICTÍCIO MAS REAL: A história de um general que preferiu andar com "merda" a tira colo
Por Tribuna Foz dia em Notícias
UM CONTO FICTÍCIO MAS REAL
A história de um general que preferiu andar com "merda" a tira colo
Nessa cidade, por obra do destino, ou de uma eleição, um general do Exército, chamado nesta história de General Joasbim Cabeça na Lua, tornou-se prefeito
Era uma vez uma cidade turística muito orgulhosa de suas cascatas, de seus visitantes estrangeiros e de sua capacidade infinita de transformar qualquer assunto sério em uma comédia administrativa.
Nessa cidade, por obra do destino, ou de uma eleição, um general do Exército, chamado nesta história de General Joasbim Cabeça na Lua , tornou-se prefeito.
O general havia passado décadas em quartéis, onde a grama cresce sob ordem e o meio-fio só é pintado depois de autorizado pelo comando. Acostumado à lógica militar, ele acreditava que a cidade funcionava como um batalhão: bastava dar ordens firmes e esperar continência da população, dos servidores e até dos buracos nas ruas.
Nos primeiros meses, o novo prefeito General Joasbim mantinha hábitos de caserna. Fazia inspeções imaginárias, observava calçadas como se fossem pistas de formatura e tratava reuniões como se fossem instruções de tiro. Secretários viraram "oficiais", servidores viraram "tropa" e qualquer crítica era tratada como insubordinação civil.
Com o tempo, porém, a realidade municipal mostrou que cidade não é quartel e eleitor não é recruta. Já no sei primeiro ano de mandato como prefeito, o general começou a misturar protocolos administrativos com lembranças da vida militar. Dizem que, em certa ocasião, confundiu planejamento estratégico com escala de faxina. Decidiu então fazer uma grande caminhada pela cidade para "inspecionar o terreno, ou melhor a cidade".
Vestiu um terno que lembrava uma farda aposentada, calçou um coturno recém-engraxado por um assessor dedicado e saiu acompanhado de seus secretários e secretárias-oficiais. Antes da caminhada, o grupo tomou um café reforçado com leite condensado, decisão logística que logo se provaria desastrosa.
No meio do percurso, a disciplina intestinal de algumas de suas oficiais falhou miseravelmente. A pressa da caminhada, somada ao café pesado, produziu um incidente biológico no caminho, e pasmem se borraram. A "tropa", ou melhor os funcionários públicos da prefeitura, desviaram rapidamente, como quem evita um obstáculo em campo minado. Mas o general vinha logo atrás, marchando com convicção.
- General Joasbim, cuidado onde pisa - alertou um servidor.
- Silêncio! Eu só escuto meus oficiais! - respondeu, com a autoridade de quem nunca admitiu estar errado.
Dois passos depois: ploc.
O coturno encontrou o destino inevitável. O cheiro era simbólico, quase pedagógico. Mesmo assim, o general seguiu andando pela cidade, deixando marcas involuntárias por onde passava. Alguns tentavam avisar, outros sugeriam limpar o coturno, mas a teimosia hierárquica falava mais alto e o coturno se mantinha com a "merda" sob o solado . E assim, por mais de um ano, a cidade conviveu com a estranha sensação de que algo estava sempre cheirando mal na administração.
Até que surge outro personagem: um segundo general, nesta história chamado General Carrado, homem da logística, da intendência e das entregas no prazo. Diferente do primeiro, falava baixo, sorria mais e entendia que, quando algo fede, não se discute, limpa-se.
Ao assumir a chefia de gabinete do prefeito General Joasbim, percebeu rapidamente o problema. Não era o coturno. Era o que estava grudado nele.
- Precisamos oxigenar o ambiente - disse, diplomaticamente o General Carrado, enquanto abria as janelas da prefeitura metafórica.
Pouco tempo depois, três secretários foram exonerados, aqueles mesmo que defecaram e causaram todo o mal cheiro. Nos corredores, comentava-se que aquilo representava "75% do mau cheiro administrativo". A cidade respirou aliviada, como depois de uma chuva de verão.
Mas a alegria durou pouco
O general-prefeito General Joasbim Cabeça na Lua, já acostumado ao odor, começou a sentir falta daquilo que sempre o acompanhara. E, numa reviravolta digna de comédia política, decidiu nomear duas das antigas "oficias" secretárias "fontes do problema" para trabalhar diretamente em seu gabinete.
A cidade inteira riu, não por humor, mas por reconhecimento. Afinal, havia aprendido uma lição importante: quando o General Joasbim Cabeça na Lua se acostuma ao mal cheiro, passa a acreditar que ela faz parte do ambiente.
E assim, na cidade turística onde as cascatas continuam caindo todos os dias, a administração pública seguiu seu curso. Às vezes limpa, às vezes confusa, mas quase sempre lembrando que nem todo problema é acidente de percurso. Alguns são apenas escolhas feitas com o coturno sujo.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 429, página 7, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

