URUBUS CORPORATIVOS: Quando até a morte vira oportunidade de marketing
Por Tribuna Foz dia em Notícias
URUBUS CORPORATIVOS
Quando até a morte vira oportunidade de marketing
A notícia era sobre a falta de vagas para famílias vulneráveis, mas a propaganda tratou o assunto como se toda a cidade estivesse disputando o último lugar no cemitério
Há momentos em que a realidade consegue superar qualquer roteiro de humor ácido. Em Foz do Iguaçu, a recente crise envolvendo a falta de vagas para sepultamentos gratuitos nos cemitérios públicos é um desses casos.
Uma situação grave, consequência direta da incapacidade administrativa de gestores que, ao que tudo indica, passaram anos observando o problema crescer como quem acompanha uma rachadura na parede acreditando que ela vai se consertar sozinha.
O mais impressionante não é o fato de o problema ter chegado a esse ponto. Afinal, em algumas administrações públicas, planejar o futuro parece ser considerado um esporte radical. O surpreendente é a velocidade com que alguns enxergaram na crise uma excelente oportunidade de negócio.
"Faltou jazigo? A solução chega em suaves prestações"
Mal a notícia da falta de vagas para sepultamentos gratuitos ganhou destaque nos meios de comunicação, surgiu nas redes sociais uma propaganda patrocinada oferecendo uma suposta solução milagrosa: a cremação através de um plano funerário.
A peça publicitária tem todos os ingredientes de uma boa campanha emocional. Uma atriz, com tom de preocupação cuidadosamente ensaiada, pergunta ao público se viu a notícia da falta de vagas nos cemitérios e afirma que existem situações que parecem não ter solução. Logo em seguida, apresenta a cremação como alternativa moderna, inteligente, sustentável, respeitosa e praticamente revolucionária.
"Da falta de jazigos ao marketing da morte"
É quase uma versão funerária daqueles comerciais que prometem felicidade eterna em apenas doze parcelas sem juros.
O detalhe é que a propaganda parece ter sofrido de uma curiosa alergia a informações importantes.
"Morreu a gratuidade, nasceu a mensalidade"
Por exemplo, não se fala com a mesma empolgação que as mensalidades iniciam em torno de R$ 80. Também não há grande destaque para o fato de que o contrato pode durar cerca de vinte anos. Menos ainda para o cálculo simples que qualquer cidadão pode fazer ao multiplicar as parcelas ao longo desse período, chegando a valores próximos de R$ 20 mil, sem considerar reajustes monetários.
Mas talvez o aspecto mais interessante seja a famosa carência. Afinal, nem mesmo a morte escapa da burocracia contratual. O cliente precisa ter a gentileza de continuar vivo durante determinado período para só depois conquistar o direito de utilizar o benefício que está pagando.
Traduzindo: morrer cedo demais pode não ser uma atitude compatível com o regulamento.
Entretanto, a cereja do bolo está na própria origem do problema utilizado para promover o serviço.
A crise divulgada pela imprensa refere-se à falta de vagas destinadas aos chamados sepultamentos gratuitos, voltados exclusivamente para famílias em situação de vulnerabilidade social assistidas pelo poder público.
"O além é logo ali, após 20 anos de suaves parcelas"
Ou seja, não estamos falando de uma ausência generalizada de jazigos para toda a população da cidade. Não existe uma corrida desesperada de famílias de classe média em busca de espaço para enterrar seus entes queridos. O problema é específico, localizado e relacionado a um serviço público destinado justamente à população mais pobre.
Nesse contexto, transformar uma deficiência da assistência social em argumento comercial parece uma estratégia no mínimo questionável.
A mensagem implícita acaba sendo curiosa: apresenta-se uma crise que afeta pessoas sem condições financeiras e oferece-se como solução um produto pago durante décadas.
É como se alguém observasse uma enchente em um bairro carente e anunciasse imediatamente a venda de lanchas de luxo para os moradores.
No fim das contas, o episódio produz uma combinação perfeita entre dois velhos conhecidos do cidadão brasileiro: a incompetência pública e o oportunismo privado.
De um lado, gestores que ignoraram alertas até que os cemitérios chegassem ao limite. De outro, empresas que enxergam no medo coletivo uma excelente oportunidade para ampliar contratos.
"A morte está cara, mas o carnê precisa estar em dia"
A população, como sempre, assiste ao espetáculo. Uns descobrindo que não há vagas para os mais pobres. Outros descobrindo que até para morrer existe plano de fidelidade, prazo de carência e prestação mensal.
Em Foz do Iguaçu, pelo visto, nem o descanso eterno consegue escapar da lógica do improviso administrativo e do marketing oportunista. Afinal, quando falta planejamento em vida, sobra criatividade para faturar com a morte.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 436, página 3, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

