Os iguaçuinos que anexaram a caminhada de Nikolas Ferreira em busca de visibilidade política
Por Tribuna Foz dia em Notícias
DESCRÉDITO
Os iguaçuinos que anexaram a caminhada de Nikolas Ferreira em busca de visibilidade política
Cabo Cassol: Fiscalizar o Executivo? Que nada. Marchar atrás de deputado famoso dá mais engajamento
Algumas pessoas realmente precisam ser estudadas pela NASA. Não para descobrir vida em outros planetas, mas para entender como certos cérebros conseguem operar em órbita tão distante da realidade.
Caminhada em busca de capital eleitoral
A chamada marcha a pé de Minas Gerais até Brasília, protagonizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), nasceu travestida de protesto político, mas se revelou, na prática, um desfile de vaidades, oportunismo e marketing pessoal de baixíssima qualidade. Uma caminhada que não buscou justiça, tampouco defendeu a democracia, mas sim likes, seguidores, manchetes e, claro, capital eleitoral.
Sob o pretexto de indignação contra decisões do Supremo Tribunal Federal. Especialmente as condenações dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, Nikolas transformou o asfalto em palco e o cansaço físico em espetáculo. Uma performance cuidadosamente roteirizada para as redes sociais, onde cada passo é menos um ato político e mais um story ensaiado. Tratou-se menos de uma peregrinação cívica e mais de uma romaria da autopromoção.
Cabo Cassol, em vez de fiscalizar, melhor caminhar
O problema é que esse teatro ruim não ficou restrito a Minas Gerais. Como toda má ideia, ganhou franquias. E Foz do Iguaçu, sempre pronta para fornecer personagens secundários para tragédias nacionais, resolveu anexar sua própria ala ao espetáculo. Afinal, se há holofotes, sempre haverá alguém disposto a se posicionar embaixo deles, ainda que custe caro aos cofres públicos.
Entre os iguaçuinos que decidiram trocar suas obrigações institucionais por uma caminhada política improvisada está o vereador Cabo Cassol. Eleito para fiscalizar os atos do prefeito General Silva e Luna, Cassol resolveu que o melhor uso do mandato não era cumprir sua função constitucional, mas sim fazer turismo político ideológico, acompanhado de assessores pagos com dinheiro público. Tudo isso com salário garantido: O vereador Cabo Cassol recebeu um salário de R$ 16.724,00 referentes a janeiro de 2026. Fiscalizar o Executivo? Que nada. Marchar atrás de deputado famoso dá mais engajamento.
Adilson Ramão, o homem do segundo grau falso
O mais curioso é que o vereador, que gosta de posar como paladino da moralidade e da ética inabalável, não caminhou sozinho. Levou a tiracolo seu ex-assessor Adilson Ramão, personagem conhecido nos corredores da Câmara Municipal não por méritos técnicos, mas pelo uso de um certificado falso de conclusão do ensino médio.
Adilson Ramão teria embolsado pouco mais de meio milhão de reais dos cofres públicos
Um detalhe irrelevante, aparentemente, para quem permaneceu nomeado entre 2021 e 2025, recebendo religiosamente seu salário. Ao todo, Adilson Ramão teria embolsado pouco mais de meio milhão de reais dos cofres públicos. Meio milhão. Dinheiro do contribuinte. Quando a fraude veio à tona e o uso de documento falso se tornou incontestável, o vereador fez o que qualquer moralista de ocasião faria: exonerou o assessor e fingiu surpresa. Como se a falsificação tivesse surgido espontaneamente no sistema, por obra divina.
ESCANDALOSO
Ver. Cabo Cassol, e suas "falcatruas"
De um jeito ou de outro, o dinheiro público encontra o caminho certo, sempre para os mesmos
Mas em Foz do Iguaçu, as "falcatruas" não conhecem ponto final, apenas vírgulas. Poucos dias depois da exoneração de Adilson Ramão da assessoria do vereador Cabo Cassol, eis que surge mais um capítulo dessa novela tragicômica: Gabrielli Ramão, filha de Adilson Ramão, sendo nomeada para o cargo de Assessor I, na Secretaria Municipal de Meio Ambiente na Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu.
Coincidência
Coincidência, claro. Em Foz, coincidências são quase uma política pública. De um jeito ou de outro, o dinheiro público encontra o caminho certo, sempre para os mesmos sobrenomes.
É nesse contexto que o famoso lema "Deus, Pátria, Família e Liberdade", tão repetido pelos representantes do Partido Liberal, ganha em Foz do Iguaçu uma versão mais honesta e condizente com a prática local: "Deus, Pátria, Família e Falcatrua". Um slogan que, embora sarcástico, descreve com precisão cirúrgica a contradição entre discurso e realidade.
Desserviço à nação
A tal caminhada, vendida como gesto nobre e patriótico, está muito longe de qualquer ideal elevado. Trata-se de um desserviço à nação. Um ato que confronta o Estado Democrático de Direito, deslegitima o Supremo Tribunal Federal e ainda presta solidariedade explícita a indivíduos que atentaram contra a própria democracia.
Pessoas que, a serviço de Jair Bolsonaro, tentaram um golpe tosco, mal planejado e historicamente patético, frustrado não por heroísmo institucional, mas pela própria incompetência de seus articuladores, inclusive setores militares alinhados ao ex-presidente.
Não há injustiça a ser corrigida, apenas narrativas a serem exploradas
A participação de figuras públicas como Nikolas Ferreira e do vereador Cabo Cassol não passa de provocação rasteira à sociedade. Um esforço deliberado para manter viva a chama do ressentimento político, reciclando um episódio que já foi analisado, julgado e punido pela Justiça. Não há injustiça a ser corrigida, apenas narrativas a serem exploradas.
A marcha, nesse sentido, lembra mais uma encenação delirante, digna de Dom Quixote investindo contra moinhos de vento. Só que, neste caso, os moinhos são instituições democráticas e a lança é o populismo barato. Um espetáculo vazio, carregado de ranço ideológico e absolutamente desprovido de qualquer significado republicano.
O blogueiro que ganhava mais que médico agora pede ajuda
Como se não bastasse, a chamada "marcha do ridículo" ainda atrai figuras que parecem competir entre si pelo título de maior incoerência política. É o caso do blogueiro de direita Leandro Pinto, outro nome já conhecido do Judiciário por também ter sido nomeado na Câmara Municipal de Foz do Iguaçu utilizando documento falso de conclusão do ensino médio.
Um detalhe técnico, aparentemente irrelevante, até que se recorda de um vídeo antigo em que o próprio blogueiro se vangloriava: "Hoje eu ganho muito mais do que um médico".
Pois bem. O mesmo personagem que dizia ganhar mais que médico agora surge em novo vídeo, com discurso comovido, afirmando que não tem condições financeiras para ir a Brasília. A solução? Uma vaquinha online. Link na bio. Afinal, por que pagar a própria viagem quando se pode apelar para a boa-fé, ou ingenuidade, dos seguidores? Mesmo não precisando de dinheiro, mesmo se dizendo bemsucedido, ainda espera que os "trouxas" da direita arquem com seus custos ideológicos.
Essa é a síntese da caminhada: gente que vive do dinheiro público pedindo dinheiro privado para sustentar performances políticas vazias. Um carnaval fora de época, onde a fantasia é de patriota e a realidade é de oportunismo.
A marcha de Nikolas Ferreira e seus anexos iguaçuinos não deixou legado, não produziu reflexão e não contribuiu em absolutamente nada para o país. Serviu apenas para inflar egos, manter personagens irrelevantes no radar e confirmar aquilo que muitos já sabem: quando falta projeto, sobra encenação. Quando falta ética, sobra discurso. E quando falta compromisso com a verdade, sempre haverá alguém disposto a caminhar quilômetros em busca de visibilidade. Ainda que seja pisando em cima da própria incoerência.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 428, páginas 8 e 9, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

