Pronto-Socorro da ITAMED supera capacidade e hospital suspende novas admissões
Por Tribuna Foz dia em Notícias
ITAMED CHEGA AO LIMITE
Pronto-Socorro da ITAMED supera capacidade e hospital suspende novas admissões
Em menos de 30 horas, número de pacientes aguardando UTI saltou de seis para 16; hospital atingiu 131,25% de ocupação e comunicou oficialmente que não tinha mais condições de receber novos pacientes
A situação da saúde pública de Foz do Iguaçu ganhou um novo e preocupante capítulo neste fim de semana. Dois documentos oficiais encaminhados pela Fundação de Saúde Itaiguapy, administradora do Hospital Itamed, revelam a velocidade com que o Pronto-Socorro da instituição saiu de uma condição considerada de “capacidade crítica” para o “esgotamento da capacidade operacional”, culminando na impossibilidade temporária de novas admissões.
Os comunicados foram encaminhados à Secretaria Municipal de Saúde de Foz do Iguaçu, 9ª Regional de Saúde, Secretaria de Estado da Saúde, Central Estadual de Regulação e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). O Ministério Público do Paraná, por meio da 9ª Promotoria de Justiça de Foz do Iguaçu, também recebeu cópia dos documentos.
O que chama atenção não é apenas a superlotação, mas a rapidez do agravamento. Em pouco mais de um dia, o número de pacientes esperando uma vaga de UTI passou de seis para 16.
Primeiro alerta: ITAMED avisa que estava à beira do esgotamento
O primeiro documento, CE/FSI/1591/2026, é datado de 14 de agosto. Às 17h40 daquela sexta-feira, o Hospital Itamed já classificava oficialmente a situação de seu Pronto-Socorro como de “capacidade crítica”.
Segundo a Fundação, a unidade já operava acima de sua capacidade operacional ordinária, mantendo pacientes que aguardavam leitos de UTI e internação em espaços originalmente destinados ao atendimento de urgência, emergência e estabilização transitória.
Mais grave: o documento afirma que a situação persistia havia vários dias e que já tinha sido comunicada reiteradamente aos órgãos responsáveis pela gestão e regulação da rede.
Ou seja, o colapso que seria formalizado no dia seguinte não surgiu de surpresa.
Havia sinais. Havia pacientes acumulados. Havia falta de retaguarda hospitalar. E, segundo o próprio Itamed, havia comunicações anteriores aos responsáveis pela rede.
16 vagas e apenas dois leitos ainda disponíveis
O Pronto-Socorro do Itamed possui capacidade operacional para atender simultaneamente até 16 pacientes, incluindo dois leitos de Sala Vermelha.
Na tarde do dia 14, já havia 14 pacientes sob assistência. Restavam justamente os dois leitos reservados para estabilização de pacientes críticos. Caso fossem ocupados, o hospital advertia que estaria configurado o esgotamento integral da capacidade do setor.
Entre aqueles 14 pacientes, seis tinham indicação médica para internação em UTI, estavam inseridos no sistema GSUS e aguardavam definição de vaga e transferência.
O problema era ainda maior porque, naquele momento, todos os leitos de UTI do próprio Hospital Itamed estavam ocupados, sem previsão imediata de liberação e sem possibilidade de absorção interna dos pacientes que aguardavam no Pronto-Socorro.
Pacientes de UTI presos no pronto-socorro
Um Pronto-Socorro deveria funcionar como porta de entrada, atendimento emergencial, estabilização e encaminhamento. Quando pacientes que necessitam de internação permanecem ocupando seus espaços por falta de leitos de retaguarda, o fluxo começa a travar.
Foi exatamente isso que o Itamed registrou.
Segundo a Fundação, a permanência desses pacientes no Pronto-Socorro por falta de retaguarda hospitalar comprometia o fluxo assistencial, restringia o recebimento de novos casos agudos e ampliava os riscos decorrentes da superlotação.
O hospital também deixou registrado que a transferência dependia da regulação e da disponibilização de leitos compatíveis pela rede, providências que “extrapolam a governabilidade do Hospital Itamed”.
Em outras palavras: o Itamed dizia que já não tinha como resolver internamente o problema.
ITAMED CHEGA AO LIMITE
Hospital ITAMED pede socorro à rede
Diante da situação, a Fundação pediu urgentemente a transferência dos seis pacientes que aguardavam UTI e solicitou medidas para que novos pacientes fossem redirecionados a outras unidades caso os dois últimos leitos disponíveis fossem ocupados antes das transferências.
O comunicado foi explícito: com a ocupação desses dois espaços, o Pronto-Socorro ficaria integralmente esgotado e o Itamed não teria “condições físicas, operacionais e assistenciais” para receber novos pacientes.
Era o aviso formal de que a porta estava prestes a fechar.
E fechou.
Menos de 30 horas depois, o pior cenário se confirma
No sábado, 15 de agosto, o hospital expediu um segundo documento, CE/FSI/1592/2026.
Desta vez, não havia mais alerta sobre aquilo que poderia acontecer.
Já havia acontecido.
Às 21 horas, o Pronto-Socorro, dimensionado para 16 pacientes, estava atendendo 21 pessoas.
A taxa de ocupação chegava a 131,25%.
Dos 21 pacientes, nada menos que 16 aguardavam leito de Unidade de Terapia Intensiva e outros quatro aguardavam leito de enfermaria. Eles permaneciam dentro do Pronto-Socorro justamente pela indisponibilidade de retaguarda hospitalar.
A comparação entre os dois documentos expõe a dimensão da escalada.
Na sexta-feira eram seis pacientes esperando UTI.
No sábado eram 16.
Dez pacientes a mais aguardando terapia intensiva em pouco mais de um dia.
131,25%: Não havia mais onde colocar pacientes
Com a capacidade ultrapassada, a Fundação de Saúde Itaiguapy comunicou oficialmente que o Hospital Itamed estava “materialmente impossibilitado de realizar novas admissões no Pronto-Socorro”.
Enquanto a situação permanecesse, os novos pacientes deveriam ser redirecionados pelos gestores e pela regulação para outras unidades da rede que ainda possuíssem capacidade disponível.
A palavra utilizada pelo próprio hospital é suficientemente clara: impossibilitado.
Não se tratava mais de trabalhar próximo ao limite.
O limite havia sido ultrapassado.
ITAMED pede transferência imediata de 16 pacientes para UTI
No segundo comunicado, o hospital apresentou três solicitações urgentes aos responsáveis pela rede pública de saúde.
A primeira era a transferência imediata dos 16 pacientes cadastrados no GSUS que aguardavam internação em UTI.
A segunda era a transferência dos pacientes que aguardavam vagas de enfermaria.
A terceira, o imediato redirecionamento de novos pacientes para outros serviços da rede.
O cenário descrito nos documentos mostra um efeito dominó: sem vagas de UTI, pacientes permanecem no Pronto-Socorro; ocupando o Pronto-Socorro, impedem a abertura de espaço para novos casos; sem espaço, novas admissões tornam-se inviáveis.
É o congestionamento hospitalar levado ao seu ponto extremo.
Hospital mantém quem já estava internado, mas fecha para novas admissões
A Fundação informou que a impossibilidade de novas admissões permaneceria enquanto não houvesse efetiva liberação da capacidade do Pronto-Socorro.
O Itamed assegurou que continuaria prestando assistência aos pacientes já admitidos, respeitando, porém, os limites de sua capacidade e as condições necessárias à segurança assistencial.
O comunicado foi assinado pelo diretor-superintendente Gilmar de Oliveira e pelo diretor técnico José Mário Camelo Nunes, CRM-PR 44.582, e encaminhado também ao Ministério Público Estadual.
Do alerta ao esgotamento em apenas um dia
Os dois documentos, analisados conjuntamente, formam uma espécie de cronologia do colapso.
No dia 14, o Itamed dizia estar em capacidade crítica, com 14 pacientes para 16 vagas operacionais e seis pessoas aguardando UTI.
Advertiu os gestores.
Pediu transferências.
Informou que restavam apenas dois leitos de estabilização.
Alertou que, se fossem ocupados, novas admissões seriam inviabilizadas.
No dia seguinte, o cenário projetado tornou-se realidade: eram 21 pacientes no Pronto-Socorro, ocupação de 131,25% e 16 pessoas aguardando UTI.
O hospital então comunicou o esgotamento integral de sua capacidade e a impossibilidade de receber novos pacientes.
Documentos expõem problema que vai além das paredes do Itamed
Os comunicados também evidenciam que a crise não pode ser analisada apenas olhando para dentro do Hospital Itamed.
A própria instituição aponta diretamente para a falta de retaguarda hospitalar e para a necessidade de atuação da regulação e dos gestores responsáveis pela rede.
Quando um hospital chega ao ponto de comunicar formalmente à Secretaria Municipal de Saúde, à Regional de Saúde, ao Estado, à Central de Regulação, ao SAMU e ao Ministério Público que não consegue mais receber pacientes, o problema deixa de ser apenas administrativo.
Torna-se um alerta de toda a rede assistencial.
E os números registrados oficialmente são difíceis de ignorar: 16 vagas operacionais, 21 pacientes atendidos, 131,25% de ocupação e 16 pessoas aguardando uma vaga de UTI.
O alerta foi dado. depois, veio o esgotamento
Talvez o ponto mais preocupante dos documentos esteja justamente na sequência dos fatos.
O primeiro comunicado não surgiu depois do colapso. Ele foi expedido antes e registrou que a situação crítica já persistia havia dias e vinha sendo comunicada aos órgãos responsáveis.
O Itamed avisou que estava próximo do limite.
Informou quantos pacientes aguardavam UTI.
Explicou que não possuía vagas internas.
Solicitou transferências.
Advertiu que novas admissões poderiam ser suspensas.
No dia seguinte, formalizou que o limite havia sido ultrapassado.
Agora, além de solucionar a emergência assistencial, fica uma questão inevitável para os responsáveis pela saúde pública de Foz do Iguaçu e pela regulação estadual:
Se o alerta estava oficialmente dado, por que foi necessário chegar ao ponto de um Pronto-Socorro operar com 131,25% de ocupação e declarar-se materialmente impossibilitado de receber novos pacientes?
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 441, páginas 10 e 11, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

