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SAÚDE NO LIMITE: Superlotação em hospitais não acontece de uma hora para outra

Por Tribuna Foz dia em Notícias

SAÚDE NO LIMITE: Superlotação em hospitais não acontece de uma hora para outra
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SAÚDE NO LIMITE

Superlotação em hospitais não acontece de uma hora para outra

O Conselho Municipal de Saúde de Foz do Iguaçu (COMUS) decidiu bater à porta do Ministério Público. E quando o órgão responsável pelo controle social do SUS precisa recorrer ao MP para pedir providências diante da superlotação dos hospitais, é sinal de que alguma coisa, ou muita coisa deixou de funcionar.

O cenário apresentado pelo COMUS é alarmante: o Hospital Municipal Padre Germano Lauck (HMPGL) teria chegado a 128% de ocupação, enquanto mais de 20 comunicados de superlotação foram registrados somente em 2026. No Hospital ITAMED, a situação teria sido ainda mais dramática: o Pronto-Socorro Obstétrico alcançou 213,3% de ocupação.

Mais do que números, estamos falando de pacientes, profissionais e famílias submetidos a uma estrutura que aparentemente passou a trabalhar muito além do seu limite.

Mas existe uma pergunta que não pode ser empurrada para debaixo do tapete: como Foz do Iguaçu chegou a esse ponto?

O caos não nasceu ontem

O próprio COMUS afirma que acompanha a situação desde outubro de 2025. Isso significa que não se trata de uma surpresa, de um acidente administrativo ou de uma crise que apareceu de repente.

Houve tempo para enxergar o problema.

Houve reuniões.

Houve cobranças.

Houve comunicados.

Houve alertas.

E, aparentemente, faltou aquilo que deveria existir justamente para impedir que o sistema chegasse ao limite: planejamento, gestão e capacidade de reação.

É muito cômodo administrar uma crise depois que ela explode. O verdadeiro desafio de um gestor público é impedir que ela aconteça.

Quando um hospital chega a 128% de ocupação, não se pode simplesmente olhar para a planilha e dizer que o sistema está funcionando. Quando um pronto-socorro obstétrico chega a 213,3%, não existe discurso bonito, apresentação de PowerPoint ou propaganda institucional capaz de esconder a gravidade da situação.

Quem administra precisa assumir a responsabilidade

A superlotação dos hospitais não pode ser tratada como uma fatalidade inevitável.

Ela é resultado de uma cadeia de problemas: falta de leitos, deficiência na regulação, dificuldade de transferência, gargalos na atenção básica, demora em exames e procedimentos, insuficiência de retaguarda e, principalmente, ausência de respostas rápidas diante de problemas que já eram conhecidos.

E é justamente aí que entra a responsabilidade dos gestores.

A Prefeitura administra a política municipal de saúde. A Fundação Municipal de Saúde administra estruturas fundamentais do sistema. A Secretaria Municipal de Saúde participa diretamente da organização dos fluxos. A 9ª Regional de Saúde também possui responsabilidades na articulação regional.

Portanto, quando o sistema entra em colapso, não adianta procurar um único culpado conveniente.

A responsabilidade é de quem tinha obrigação de planejar, fiscalizar, corrigir e agir.

O "Document Dump" e a burocracia que não resolve paciente

Outro ponto levantado pelo COMUS merece atenção especial. Segundo o Conselho, informações solicitadas à Fundação Municipal de Saúde teriam sido encaminhadas de forma insuficiente, genérica ou fora do prazo. O órgão chegou a utilizar a expressão "Document Dump", para definir o envio de grandes volumes de documentos sem organização, indexação ou resumo.

É aquela velha técnica burocrática: manda-se uma montanha de papel para dar a impressão de que tudo foi respondido.

Mas papel não organiza fila.

Documento não abre leito.

Planilha não atende paciente.

E ofício não substitui gestão.

O controle social precisa de informações claras para saber o que está acontecendo e cobrar soluções. Se até o Conselho Municipal de Saúde encontra dificuldades para obter respostas objetivas, o problema ultrapassa a questão hospitalar e alcança também a própria transparência administrativa.

Enquanto isso, o paciente espera

O COMUS também cobra explicações sobre transferências, regulação, atendimentos de demanda espontânea e encaminhamentos para outras cidades.

E aqui aparece outra conta que precisa ser colocada na mesa: o Tratamento Fora do Domicílio (TFD), que, segundo a avaliação apresentada pelo Conselho, representa despesas de milhões de reais por mês.

É preciso perguntar: quanto custa para o município não resolver os problemas dentro de Foz?

Quanto é gasto enviando pacientes para outras cidades?

Quanto custa transportar, acompanhar, regular e manter estruturas paralelas?

E, principalmente, quanto sofrimento poderia ser evitado se houvesse planejamento para utilizar melhor a estrutura já existente?

SAÚDE NO LIMITE

Hospitais com capacidade, enquanto outros estão no sufoco?

O Ministério Público não deveria ser o gerente da saúde

O COMUS sugere que hospitais que estariam operando abaixo de suas capacidades, como o Hospital Cataratas e o Hospital Unimed, sejam avaliados para eventual utilização como retaguarda clínica e de UTI em situações emergenciais.

A proposta precisa ser analisada tecnicamente, evidentemente. Mas ela levanta uma questão incômoda: se existe capacidade instalada no sistema, por que determinados hospitais chegam ao colapso enquanto outros poderiam eventualmente funcionar como apoio?

A resposta precisa ser transparente.

Não basta dizer que o problema é "complexo". Saúde pública realmente é complexa. Justamente por isso exige planejamento profissional, integração entre instituições e gestores preparados para administrar crises.

Crianças também entram na fila do abandono

O documento encaminhado ao Ministério Público revela ainda problemas envolvendo exames endoscópicos pediátricos e cerca de 80 crianças com síndrome do pé torto congênito, que enfrentariam dificuldades para realizar cirurgias de baixa e média complexidade.

Aqui a discussão deixa de ser apenas sobre números administrativos.

São crianças.

São famílias.

São procedimentos que podem interferir diretamente no desenvolvimento e na qualidade de vida.

Quando uma criança espera meses por um procedimento que deveria estar disponível dentro de uma rede organizada, a burocracia deixa de ser apenas incompetência administrativa. Ela passa a produzir consequências concretas na vida das pessoas.

O MP não deveria ser o gerente da saúde

O pedido do COMUS ao Ministério Público não significa que o MP tenha reconhecido ou confirmado todas as acusações. Trata-se de um pedido formal para que o órgão acompanhe a situação e cobre providências.

Mas existe algo simbólico nessa iniciativa.

Quando o controle social precisa chamar o Ministério Público para obrigar gestores a apresentar planos emergenciais, é porque os mecanismos normais de gestão já não estão dando conta do problema.

O MP não deveria administrar hospital.

Não deveria organizar escala.

Não deveria regular leito.

Não deveria descobrir o que está acontecendo.

Quem deveria fazer isso são os gestores da saúde.

Chega de administrar pelo retrovisor

Foz do Iguaçu precisa parar de administrar a saúde apenas depois que o problema explode.

Não é aceitável esperar o hospital chegar a 128% para discutir superlotação. Não é razoável aceitar 213,3% de ocupação em um pronto-socorro obstétrico e só depois buscar soluções emergenciais.

A pergunta que precisa ser feita agora não é apenas "como resolver a superlotação?".

A pergunta mais importante é:

"Por que deixaram chegar a esse ponto?"

Porque crise anunciada não é surpresa.

Superlotação repetida não é acidente.

Mais de 20 comunicados não são coincidência.

E uma ocupação de 213,3% não aparece por obra do acaso. Alguém deveria ter percebido antes.

Alguém deveria ter planejado antes.

Alguém deveria ter agido antes.

Agora, diante do caos instalado, resta esperar que o Ministério Público cobre aquilo que deveria ter sido feito espontaneamente pelos gestores: um plano emergencial sério, metas claras, prazos definidos, transparência nas informações e, acima de tudo, respeito ao cidadão que depende do SUS.

Porque administrar saúde pública não é esperar o paciente chegar ao limite para então descobrir que o hospital também chegou.

Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 441, páginas 9 e 10, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

 

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