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PT DE FOZ: Entre a candidata "raiz" e a candidata "nutella"

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PT DE FOZ: Entre a candidata "raiz" e a candidata "nutella"
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PT DE FOZ

Entre a candidata "raiz" e a candidata "nutella"

Quando a ideologia termina onde começa a conveniência eleitoral

Quem imagina que o Partido dos Trabalhadores é uma grande família reunida em volta da mesma mesa, compartilhando pão, ideologia e santinhos eleitorais, talvez ainda acredite em Papai Noel, coelhinho da Páscoa e unanimidade dentro de partido político.

As famosas "correntes" internas do PT existem há décadas. Dependendo de quem explica, são tendências, grupos políticos ou campos ideológicos. Para adversários mais exaltados, recebem nomes bem menos elegantes.

Há CNB, Democracia Socialista, Articulação de Esquerda, O Trabalho e outros agrupamentos. Todos abrigados sob a mesma estrela, mas nem sempre olhando para a mesma direção.

No Paraná, essas diferenças também aparecem. E em Foz do Iguaçu, aparentemente, ganharam uma versão bastante didática nas eleições de 2026.

De um lado, a vereadora e candidata a deputada estadual Valentina Rocha. Do outro, a também vereadora e candidata a deputada estadual Yasmin Hachem.

As duas estão no PT.

As duas querem uma cadeira na Assembleia Legislativa.

Mas, politicamente, parecem disputar muito mais do que simplesmente o voto do eleitor.

"Raiz" de um lado, "Nutella" do outro

Valentina Rocha representa uma linha mais identificada com setores tradicionais do PT e mantém proximidade política com nomes como Gleisi Hoffmann e Arilson Chiorato.

Yasmin Hachem, por sua vez, chegou ao PT depois de passar por outras legendas e tem sua trajetória política dentro do PT ligada ao grupo do deputado federal Zeca Dirceu.

É justamente aí que nasce a comparação que circula nos bastidores: Valentina seria a petista "Raiz"; Yasmin, a petista "Nutella".

Não se trata de avaliar qual delas é melhor vereadora. A questão aqui é outra: Qual das duas demonstra maior identidade eleitoral com o partido pelo qual hoje disputa uma cadeira de deputada estadual?

E o material eleitoral pode oferecer uma pista interessante.

Valentina: O santinho vem com a família completa

No material de campanha atribuído a Valentina Rocha, a lógica seria bastante simples: se é candidata pelo PT, apresenta também os candidatos da chapa e as escolhas políticas que defende.

Não haveria espaço para esconder sobrenome político ou deixar companheiro esperando no acostamento.

É o pacote completo.

Pode-se concordar ou discordar de Valentina. Pode-se gostar ou rejeitar suas posições. Mas, nesse aspecto, existe coerência: ela veste a camisa do partido e aparentemente não tenta esconder a estrela quando chega a hora de pedir voto.

É a chamada versão "Raiz".

Aquela que, se o partido estiver no barco, permanece no barco mesmo quando começa a entrar água.

Yasmin e o misterioso santinho dos espaços em branco

Já o material eleitoral atribuído à candidata Yasmin Hachem chama atenção justamente pelo contrário.

Seu número aparece.

Seu nome aparece.

Sua candidatura aparece.

Mas os espaços destinados a outros cargos estariam em branco.

Deputado federal? Em branco.

Governador? Em branco.

Senador? Em branco.

Presidente? Também em branco.

É quase um santinho eleitoral no estilo "monte você mesmo".

O eleitor recebe a candidata estadual e aparentemente ganha liberdade para completar o restante conforme sua preferência.

Prático? Talvez.

Ideologicamente curioso? Sem dúvida.

Porque surge uma pergunta inevitável: Como uma candidata do PT, disputando uma eleição pelo PT, deixa de apresentar em seu próprio material eleitoral até mesmo a candidatura presidencial defendida pelo partido?

Com a confirmação do material distribuído oficialmente pela campanha, a questão deixa de ser mero detalhe gráfico.

Torna-se política.

 

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PT no nome, mas não necessariamente no santinho?

O episódio fica ainda mais curioso quando observada a trajetória partidária de Yasmin Hachem.

Ela foi eleita vereadora pelo MDB, posteriormente passou pelo PV e chegou ao PT.

Mudar de partido é permitido pela legislação nas condições previstas e acontece diariamente na política brasileira. O problema político não é simplesmente mudar de legenda.

A pergunta é: Quanto existe de convicção e quanto existe de conveniência em cada mudança?

Porque partido político não deveria funcionar como aplicativo de transporte: O político entra naquele que naquele momento oferece a melhor corrida.

Ou pelo menos não deveria.

No caso de Yasmin, sua entrada no PT esteve politicamente associada ao grupo de Zeca Dirceu. Seus críticos, porém, questionam se a filiação representou efetivamente uma aproximação ideológica ou uma composição eleitoral.

E agora aparece um santinho que, segundo o material apresentado, curiosamente destacaria a própria candidata, mas não os demais nomes da chapa.

Que coincidência conveniente.

Quando o "companheiro" cabe apenas no discurso

No vocabulário histórico do PT, talvez poucas palavras sejam tão simbólicas quanto "companheiro".

Companheiro é quem marcha junto.

Companheiro é quem divide palanque.

Companheiro é quem pede voto para o outro.

Companheiro, teoricamente, não deveria desaparecer justamente na hora de imprimir o santinho.

Valentina parece ter entendido a tradição.

Yasmin aparentemente preferiu uma interpretação mais moderna: Cada um imprime o seu e Deus e o eleitor completa o restante.

É o petismo à la carte.

Escolha sua candidata estadual e fique à vontade para montar o restante do prato.

E o passado também entra na conta

Os críticos de Yasmin também recuperam episódios de sua trajetória política para questionar sua relação com governos e grupos partidários.

Quem não se lembra quando a então candidatada a vereadora Yasmin em 2020, quando se elegeu, antes mesmo de assumir a vereança, foi no pescoço do então Prefeito Chico Brasileiro exigindo um cargo com bom salário para seu namorado. E somente depois da nomeação, que ela em tese, teria feito base de sustentação do poder executivo municipal.

Mas politicamente o questionamento permanece legítimo: Qual é o limite entre articulação política e conveniência pessoal?

Essa pergunta vale para Yasmin, para Valentina e para qualquer político.

Porque ideologia que muda conforme o calendário eleitoral corre o risco de deixar de ser ideologia e virar apenas estratégia.

Duas candidatas, duas formas de vestir a estrela

E chegamos a 2026.

Valentina Rocha e Yasmin Hachem querem representar Foz do Iguaçu na Assembleia Legislativa do Paraná.

Duas mulheres.

Duas vereadoras.

Duas candidatas do PT.

Mas aparentemente duas maneiras bastante diferentes de demonstrar pertencimento partidário.

Valentina coloca o partido na vitrine. Yasmin parece preferir deixar parte da vitrine vazia.

Uma apresenta o pacote político.

A outra, aparentemente, entrega apenas o próprio nome.

Uma assume suas escolhas.

A outra deixa espaços para o eleitor preencher.

É justamente daí que nasce a provocação: uma seria "Raiz"; a outra, "Nutella".

E Lula, ficou onde?

Talvez a maior ironia esteja justamente no espaço presidencial.

Uma candidata do Partido dos Trabalhadores disputar uma eleição e eventualmente distribuir material sem indicar o candidato presidencial apoiado pela própria legenda é algo que, no mínimo, merece explicação política.

Não significa necessariamente rompimento.

Não significa automaticamente deslealdade.

Mas significa que existe uma pergunta esperando resposta.

Se o nome presidencial ajuda, por que não colocar?

Se atrapalha, por que permanecer no partido?

Se a candidatura estadual pretende conquistar o eleitorado petista, por que esconder ou omitir justamente uma das principais referências eleitorais da legenda?

E se pretende conquistar votos fora da esquerda evitando uma vinculação mais explícita, então o eleitor petista também tem direito de saber.

Porque não dá para querer a estrutura partidária quando ela interessa e esconder a identidade partidária quando ela pesa.

A estrela não deveria ser acessório de campanha

No final, a eleição de 2026 poderá mostrar qual estratégia funciona melhor.

A "Raiz", que assume o partido inteiro, seus aliados e seus candidatos.

Ou a "Nutella", que aparentemente prefere uma campanha politicamente mais independente, deixando espaços estratégicos em branco.

O eleitor decidirá.

Mas uma coisa é certa. Filiação partidária deveria significar alguma coisa além de uma sigla impressa ao lado do número do candidato.

Porque partido não deveria ser hotel: entra-se quando existe vaga conveniente e sai-se quando aparece acomodação melhor.

Muito menos deveria ser guarda-chuva usado apenas quando começa a chover dinheiro de campanha, estrutura eleitoral ou possibilidade de mandato.

Se Valentina é "Raiz" e Yasmin é "Nutella", quem dará o veredito definitivo será a urna.

Mas até lá permanece uma pergunta incômoda para a esquerda iguaçuense. Se uma candidata do PT não coloca no próprio santinho os candidatos do PT, afinal, para quem exatamente ela está pedindo votos?

Talvez seja apenas estratégia eleitoral.

Talvez seja independência.

Talvez seja conveniência.

Ou talvez o santinho tenha tantos espaços em branco porque preencher certas escolhas políticas exigiria uma coisa que nenhum programa gráfico consegue imprimir: coerência.

Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 445, páginas 4 e 5, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

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