Zé Elias: De candidato rejeitado nas urnas a coordenador de campanha
Por Tribuna Foz dia em Notícias
DO PALANQUE AO BASTIDOR
Zé Elias: De candidato rejeitado nas urnas a coordenador de campanha
Quando o currículo pesa mais pelo passado do que pelas promessas
Na política, costuma-se dizer que experiência conta. Mas há casos em que o passado pesa tanto que acaba se tornando o principal adversário do próprio candidato. Afinal, discursos podem ser reescritos, slogans podem mudar e campanhas podem ganhar novas cores. O histórico administrativo, porém, continua registrado em documentos, processos, decisões judiciais e atas de comissões parlamentares.
José Elias Castro Gomes, conhecido como Zé Elias, hoje ocupa posição estratégica como coordenador da campanha do senador Sergio Moro pelo União Brasil. Antes disso, porém, construiu uma trajetória marcada por episódios que seguem provocando questionamentos e controvérsias em Foz do Iguaçu.
A Secretaria da "Transparência" que terminou em opacidade
Em janeiro de 2021, durante a gestão do então prefeito Chico Brasileiro, foi criada a Secretaria Municipal de Transparência e Governança.
O nome da pasta parecia promissor: fortalecer mecanismos de prevenção à corrupção, aperfeiçoar controles internos e ampliar a governança pública.
Para comandar justamente a secretaria responsável pela transparência foi escolhido José Elias Castro Gomes, ou simplesmente "Zé Elias".
Na teoria, tudo parecia moderno. Na prática, a história seguiria outro roteiro.
Pouco tempo depois, o então secretário passou a coordenar um dos processos administrativos mais polêmicos da administração municipal: a tentativa de decretação da caducidade do contrato do Consórcio Sorriso.
O que era apresentado como uma solução definitiva para o transporte coletivo terminou se transformando numa longa batalha judicial.
O castelo de cartas desabou nos tribunais
O decreto de caducidade acabou sendo anulado pela Justiça. Primeiro na Vara da Fazenda Pública de Foz do Iguaçu. Depois, a decisão foi mantida pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Mais tarde, recursos também não prosperaram no Superior Tribunal de Justiça.
Na sentença de primeira instância, o juiz Rodrigo Luís Giacomin apontou contradições na motivação apresentada pelo Município.
Segundo a decisão, enquanto a Prefeitura alegava que a redução da frota justificava a caducidade, o próprio edital elaborado posteriormente previa quantidade mínima de veículos inferior à frota então existente.
Para o magistrado, essa inconsistência violava a chamada Teoria dos Motivos Determinantes, tornando o ato administrativo ilegal.
Em outras palavras, a principal justificativa utilizada pelo Município não resistiu ao exame judicial.
O resultado foi devastador politicamente.
O projeto que deveria simbolizar eficiência administrativa tornou-se um exemplo de derrota jurídica.
Agora resta acompanhar o desdobramento das discussões envolvendo eventual indenização decorrente do caso.
DO PALANQUE AO BASTIDOR
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Quem perdeu nas urnas agora quer ensinar como vencer; Currículo recheado de polêmicas a promoção garantida
Um dos episódios mais explorados politicamente por Zé Elias ocorreu em setembro de 2021.
Zé Elias, o Robin Hood às avessas
Na ocasião, anunciou a doação de R$ 82.709,11, correspondentes aos salários recebidos durante oito meses como secretário.
O gesto foi amplamente divulgado.
O discurso também.
Segundo afirmou na época, Deus lhe teria concedido talento para o empreendedorismo e prosperidade, razão pela qual devolver aquele dinheiro seria uma forma de compartilhar o que recebeu.
A narrativa era praticamente cinematográfica.
O secretário que trabalhava de graça.
O empresário bem-sucedido.
O gestor altruísta.
Só havia um pequeno problema.
Enquanto os holofotes iluminavam a renúncia salarial, os processos envolvendo a caducidade caminhavam para sucessivas derrotas judiciais.
A economia proporcionada pelos salários devolvidos passou a parecer quase simbólica diante dos riscos financeiros decorrentes da anulação do decreto.
Era como apagar um incêndio com um copo d'água depois de abrir o registro do hidrante.
A CPI que trouxe mais perguntas do que respostas
Após sua saída do governo, veio outro capítulo. A Câmara Municipal instalou a CPI do Transporte Coletivo.
Durante as oitivas, o então sindicalista Dilto Vitorassi fez duras críticas à atuação do ex-secretário.
Entre as declarações registradas, afirmou que Zé Elias seria "muito burro" e "não saberia fazer contas".
Também relatou que teria havido articulações envolvendo empresas interessadas na futura concessão do transporte coletivo. Essas declarações fizeram parte dos depoimentos prestados à CPI e ganharam repercussão pública.
Independentemente da concordância ou não com essas afirmações, o episódio ampliou o desgaste político do ex-secretário.
A guerra contra a imprensa
Outro capítulo marcante envolveu a relação entre Zé Elias e o jornal Tribuna Popular.
Reportagens sobre a CPI e seus desdobramentos motivaram ações judiciais nas quais o ex-secretário buscava impedir a divulgação das informações.
Os pedidos, contudo, não prosperaram.
A Justiça manteve a publicação das matérias.
Na prática, a tentativa de silenciar críticas acabou produzindo efeito contrário: ampliou ainda mais a repercussão dos episódios.
Na política, às vezes a tentativa de esconder um assunto faz exatamente o oposto.
Transforma-o em manchete permanente.
Quase R$ 900 mil para menos de dois mil votos
Veio então a eleição municipal de 2024. Depois de anos ocupando cargos estratégicos, Zé Elias decidiu disputar a Prefeitura.
O resultado foi expressivo apenas em um aspecto. Nos gastos.
Segundo as prestações de contas divulgadas à Justiça Eleitoral, sua campanha movimentou R$ 871.660,50.
Nas urnas, porém, vieram apenas 1.791 votos.
A conta chama atenção. Cada voto representou aproximadamente R$ 486,68 em despesas de campanha.
Naturalmente, campanhas eleitorais não podem ser avaliadas apenas pelo custo por voto. Ainda assim, o contraste entre investimento e desempenho político acabou tornando-se um dos principais símbolos do fracasso eleitoral da candidatura.
Muito recurso.
Pouco resultado.
Muito marketing.
Pouca adesão popular.
Do palanque para os bastidores
Derrotado nas urnas, Zé Elias não desapareceu da política. Apenas mudou de posição.
Saiu da condição de candidato para assumir funções estratégicas nos bastidores.
Hoje coordena a campanha do senador Sergio Moro pelo União Brasil.
É uma escolha política legítima do partido.
Mas inevitavelmente traz consigo todo o histórico administrativo e eleitoral de quem ocupa essa função.
Na política, coordenadores também carregam currículos.
E currículos são avaliados tanto pelos aliados quanto pelos adversários.
A memória é o maior cabo eleitoral
A política costuma apostar na curta memória do eleitor. Mas documentos permanecem. Sentenças permanecem. Acórdãos permanecem. Relatórios permanecem.
Assim como permanecem os resultados eleitorais.
A trajetória de Zé Elias reúne episódios que continuam sendo objeto de debate público: a condução do processo da caducidade, as derrotas judiciais, as críticas surgidas na CPI do Transporte Coletivo, os conflitos com a imprensa e uma campanha eleitoral que consumiu elevado volume de recursos para um desempenho modesto nas urnas.
Mais derrotas que vitórias, mais cargo que votos
Agora, longe das urnas e mais próximo da estratégia, ele assume o papel de coordenador de campanha.
A pergunta que inevitavelmente acompanha essa nova missão não é sobre o passado em si, mas sobre o peso que esse passado terá na credibilidade política de quem pretende conduzir projetos eleitorais de maior alcance.
Na política, cargos mudam. Funções mudam. Discursos mudam.
Mas a memória pública costuma ser bem menos flexível.
Esta é uma reprodução da matéria jornalística publicada pelo Jornal Tribuna Popular, Edição 439, páginas 10 e 11, de autoria do Jornalista Enrique Alliana

